20 de novembro de 2008

MEMÓRIA OLFATIVA

Você conhece a Algaroba? E essas outras tantas obras da natureza? Minha infância em Juazeirinho foi povoada por algarobas, juremas, catingueiras, marmeleiros, goiabeiras, umbuzeiros, melões-são-caetano, melancias, melões, cocos catolés, frutas-de-palma, gogóias...
A imagem e o cheiro dessas árvores, plantinhas, frutas e algumas vagens estão gravadas, e bem gravadas em minha memória. Às vezes chego a salivar - qual o famoso cão de Pavlov - quando lembro de algumas delas.
Foi o que me aconteceu hoje pela manhã. Desperto às 4:50h pra ler textos, termino e resolvo fazer metade do percursos da caminhada. Pois não é que passando num trecho em que passo todos os dias sem me dar conta, o cheiro forte da Algaroba me subiu pelas ventas? O cheiro das raízes úmidas, vagens, folhas, tronco, o cheiro da minha meninice inteira, do parquinho da praça em frente à casa onde morávamos, repleto de algarobas, escorregos, gangorras, balanços, carrossel e os outros apetrechos costumeiros de um parque.
Neste mesmo parque fui vítima de um acidente marcante. Costumávamos caminhar por cima da mureta do parque, que era todo cercado de uma parede de cobogóis e uma chapa cimentada na parte superior, boleada, exatamente pra evitar que andassem sobr ela. Nós, é claro, desafiávamos tudo, num exercício de equilíbrio circense e, vez por outra, éramos 'pegos' de surpresa por um fiscal da prefeitura que botava todo mundo pra correr. Um deles, considerado dos mais rigorosos (pra ser eufêmico), era 'seo' Tonito, meu pai.
Pra tentar evitar os passeios dos equilibristas, colocaram uma pequnina cerca de arame farpado por sobre a parede da mureta. E nós? Continuamos desafiando a tudo e a todos, com a exigência natural de mais perícia, pois agora andávamos com a cerquinha de arame entre uma perna e outra. Numa dessas 'viagens', assustado, saltei e caí muito próximo da parede e, na tentativa de me equilibrar no solo, fiquei com o dedo mindinho espetado num 'espinho' do arame farpado. Ganhei uma surra, um susto, uma dor enorme, uma pereba no dedinho, uma pequena cicatriz e hoje, a maravilhosa lembrança daqueles dias fantásticos.
Pois assim me sucedeu nesta manhã ensolarada de 20 de novembro de 2008. Viajei!

3 comentários:

Débhora Melo disse...

Rangel,

Que saudosismo bacana...
E no meu despertar,surgem infindas recordações,elas todas repletas de saudades, emoção e amor.
Saudades de pessoas especiais, de tempos distantes,de lugares inesqueciveis,de prazeres e cheiros inconfundiveis.
De recordar um tempo mágico,de dias de esperanças,dos meus sonhos de criança.
Que saudade nesse momento estou Rangel,da minha infância...
Deixo para você uma poesia de Casimiro de Abreu também nostalgica, que nos remete ao melhor tempo que vivenciamos.
Parabéns pelo belissimo texto!



MEUS OITO ANOS


Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!


Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!


Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!


Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!


Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!


Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!


Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

(CASIMIRO DE ABREU)


Um abraço,

Débhora Melo.

Anônimo disse...

Caro Júnior

Estou percebendo que quanto mais te ocupas, mais produzes! Bendito labor! Parabéns! Eu ando meio preguiçosa... É preciso "tesão" (desculpe o termo) também para escrever. Concorda? Mas, cá prá nós. É de fazer inveja esse amor telúrico que nutres pelo amado Juazeiro. É pra se cantar "Juazeiro, juazeiro, onde anda o meu amor?/ Juazeiro, velho amigo...". Ratifico o teu pensar. Essas linguagens olfativas aguçam outros sentidos que mexem fundo com nossas emoções. Continuo te admirando pela versatilidade estilo leve e gostoso que imprimes em teus textos.
Abraços
Divanira

Anônimo disse...

OI Jr... Não tive essa sua infância peralta numa cidade como Jazeirinho, mas viajei na descrição que vc fez do que viveu... Adorei!!
Abração
Angela