26 de novembro de 2016

SOBRE o amor

A poetisa Constância Maria ofereceu o Mote no Clube do Repente e eu me animei pra me arriscar em duas glosas. 👇 Aprendi que a paixão tem dois destinos Quando explode num peito sonhador Numa metamorfose vira amor Ou falece, sem velório, enterro ou sinos Tempestade que lança em desatinos Nunca pede perdão, nem se retrata De amar fui e sou cardiopata Quando de um coração me vejo expulso É na força do amor que pego impulso Pra seguir nessa vida que maltrata. Toda vez que caí me levantei Bati logo a poeira e fui seguindo Cuidadoso, o caminho construindo Sem pisar no buraco onde pisei Eu amei, eu sofri, de novo amei É assim se a paixão me arrebata E se meu miocárdio me delata Trepidando tum-tum, em dor convulso É na força do amor que pego impulso Pra seguir nessa vida que maltrata.

3 de novembro de 2016

Glosa

Num grupo do whatsapp,  Clube do Repente, oferecido um belo noite arrisquei uma glosa.
Aí...

"Todo carro tem três retrovisores/
Mas olhando para trás não se conduz/
No futuro é onde está a luz/
Que buscamos guiados por valores/
Desenganos, tristezas, desamores/
São percalços de toda a caminhada/
Bem melhor é fazer a própria estrada/
E mirar o horizonte à sua frente/
Amanhã será hoje novamente/
E o que foi, já se foi, não vale nada/

Rangel Junior
Mote: Heliodoro Morais

2 de novembro de 2016

O Dia dos Mortos e os meus mortos

Dia dos Mortos ou Dia de Finados? Dá no mesmo. Mas, como sempre, não vou visitar cemitérios. Respeito e admiro que vai. Entretanto, fiz esta escolha divergente já há alguns anos e dela não me arrependo. Mesmo porque posso um dia mudar.

Passar 364 dias do ano e escolher um dia para vivificar a memória daqueles e daquelas que nos valeram muito em vida não tem me parecido muito justo com todas aquelas pessoas.

Resolvi, então, que as homenagearia ou visitaria suas "eternas moradas" a qualquer momento, em qualquer dia do ano, desde que me desse na telha, que surgisse uma oportunidade ou, na falta dela, eu mesmo resolvesse criá-la.

Cada pessoa querida que se foi, porque seu tempo chegou, de alguma maneira continua comigo. Cada amigo ou amiga que partiu antes do combinado (isto porque, principalmente depois dos 50, sempre entendemos como prematura a morte de quem não passou, ainda, dos 80) deixou um pouco de si aqui comigo.

Deste modo, cada uma dessa pessoas que se foi está plenamente presente em vários momentos da minha vida, seja numa leitura de livro, numa memória resgatada, num souvenir qualquer, numa mesa de bar, numa canção entoada ou em simples toques e acordes do meu violão.

Aprendi a amá-las de longe em recolhido e reverente silêncio. Vez por outra faço questão de que outras pessoas saibam de suas existências e de como foram importantes, ao seu modo, em minha existência e na construção e transformação humana do que hoje sou.

Acho que tenho uma espécie de departamento aqui em meu coração e guardo-as em espécies de casinhas sem chaves. Dai, quando menos espero, uma ou outra delas sai e me ativa um registro importante, emocionante, singelo, único... e então acontece o inesperado. Sem convidá-las, sem acionar qualquer mecanismo consciente, elas despertam, saem de suas casinhas e ficam comigo por um tempo até que depois se recolhem novamente.

É assim que as amo. É assim que continuo com elas me relacionando. Trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Neste caso de 2016, bissexto, trezentos e sessenta e seis.

16 de outubro de 2016

A VIDA É MUITO MAIS

Eu teria diversas razões para estar triste no dia de hoje.

Porém, a vida nos apresenta situações (e circunstâncias muito especiais) que nos fazem, necessariamente, refletir e perceber que a vida verdadeira, a vida em sua abundância é muito maior do que qualquer pequeno conflito existencial.

Entre a última sexta-feira e hoje estive duas vezes no MAPP - Museu de Arte Popular da Paraíba.

Uma roda de veteranos do choro...uma apresentação especial de um jovem instrumentista, uma canja especial de um jovem trombonista...(mais duas canções...)... boas conversas e sorrisos... Um público pra lá de bacana entre 05 e 80 e poucos anos... Um grupo de turistas visitando...
Uma turma de formandos fotografando pro seu álbum de recordações.... Um casal de namorados trocando juras alumiados pela lua e pelo reflexo das luzes no espelho d'água do Açude Velho... Um grupo de rap (ou seria hip hop?) dançando (sob os pandeiros)... Um diálogo fantástico com um dos maiores arquitetos deste país...  Cydno Ribeiro da Silveira...

As garças pousando, passeando e cagando nas rampas e nos vidros, com sua imponência graciosa e descomprometida...

Oscar Niemeyer ficaria feliz em ver a integração do MAPP à paisagem de Campina Grande e ao imaginário grandiloquente de sua gente.

A vida é mais importante que a arte...
As vezes vemos algo de um ângulo novo e isto muda nossa percepção e muda, portanto, a forma como nos relacionamos com o mundo em redor.

Vamos em frente.

15 de setembro de 2016

ZÉ LAURENTINO: SOBRE POETAS E POESIA

DOIS TEXTOS ANTIGOS AQUI PUBLICADOS:

1. O POETA E A PALAVRA

O poeta e a palavra são farinha do mesmo saco.
A palavra está para o poeta,
assim como a chuva está para o arco-íris.


A palavra na cabeça do poeta,
A palavra na caneta do poeta,
A palavra tinta no pincel do poeta,
A palavra vida no coração do poeta,
A palavra punhal, palavra-dor,
palavra comida, palavra vinho no bucho do poeta.


A palavra nomeia.
O poeta passeia com a palavra.
O poeta namora a palavra.
O poeta come a palavra,
transa com ela, goza e... morre.


Morre o poeta com a palavra.
O poeta da palavra não morre.
A palavra do poeta não morre.
O poeta não morre,
... vira pura palavra!

2. ZÉ LAURENTINO

Poeta é aquele que tira de onde não tem e põe onde não cabe”

Pinto do Monteiro.


José Laurentino da Silva é Paraninfo Geral das turmas concluintes do período letivo 2009.2.

Uma lenda na Universidade, estampou em manchete um dos jornais da cidade. Não inventou nem aumentou, pois estamos de fato diante de uma verdadeira lenda viva da poesia.

Recebida a tarefa de homenageá-lo, em nome da UEPB, busquei inspiração nos poetas. Nada mais justo!

Antes de iniciar esta pequena reflexão saí por aí perguntando e depois fiz a mesma pergunta a mim mesmo:

De que matéria são feitos os poetas?

Pensei em uma resposta rápida: Da mesma matéria que são feitos os pedreiros. Os poetas são gente de carne, osso e sentimento.

Os poetas são seres de luz, disse alguém!

Outro respondeu que os poetas são seres de outro mundo. Talvez o mundo da lua!

Pra me ajudar a entender o problema que levantei fui pedir ajuda ao poeta João Paraibano e ele me disse:

 

"Faço da minha esperança

Arma pra sobreviver,

Até desengano eu planto

Pensando que vai nascer

E rego com as próprias lágrimas

Pra ilusão não morrer.

 

Há três coisas nesta vida

Que Deus me deu e eu aceito:

A Terra para os meus pés,

A viola junto ao peito

E um castelo de sonhos

Pra ruir depois de feito."

 

Pensei que os poetas são como os dias, são como a essência da vida... e então Cecília Meireles me confidenciou que os dias são feitos de matéria fátua.

De que são feitos os dias? 
- De pequenos desejos, 
vagarosas saudades, 
silenciosas lembranças. 

Entre mágoas sombrias, 
momentâneos lampejos: 
vagas felicidades, 
inatuais esperanças. 

De loucuras, de crimes, 
de pecados, de glórias 
- do medo que encadeia 
todas essas mudanças. 

Dentro deles vivemos, 
dentro deles choramos, 
em duros desenlaces 
e em sinistras alianças...

Os poetas são gente comum, que comem feijão com arroz, tomam uma cachaça, mas não cospem no pé do balcão. Os poetas são catalisadores de sentimentos. Por isso carregam consigo todas as dores do mundo, todo o sentimento do mundo.

Disse Carlos Drummond de Andrade:

Tenho apenas duas mãos 
e o sentimento do mundo...”

Poetas e tontos são feitos com palavras”, disse Manoel de Barros, pois “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando”.

E quando os poetas falam com os sonhos, conversam com os desejos, buscam o inimaginável, o imponderável, o inusitado a palavra nova, a cara nova da palavra, o cheiro novo da palavra... é de vida que estão falando.

A poetisa portuguesa Florbela Espanca disse como num desabafo:

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor.”

A mais famosa das tentativas de entender os poetas foi uma empreitada de Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.”

A Universidade Estadual da Paraíba, que prima e persegue a objetividade da ciência, hoje rende-se ao lirismo e à crueza do cotidiano, ao matuto de Puxinanã que virou homem do mundo.

O nome Zé Laurentino tem 208 mil entradas no Google. No site Usina de Letras, Maria do Socorro Cardoso Xavier afirma:

De inteligência privilegiada o poeta Zé Laurentino coloca-a serviço do seu povo, fazendo rir e tirando lições do acontecer cotidiano caipira. Zé Laurentino é a encarnação do interior nordestino, este sentir rústico, forte, telúrico e pândego ao mesmo tempo”.

Eu, a Cama e Nobelina, Matuto no Futebol, O Mal se Paga com o Bem, Carona de Candidato, Esmola pra São José e tantos outros.

O homem que tem poemas e glosas gravados por dezenas de artistas brasileiros, muito de grande destaque no meio artístico e cultural.

Assim ele se definiu em discurso de posse na Academia de Letras:

Autoridades presentes,

Minhas senhoras e senhores,

Sou poeta sertanejo

Meus maiores professores

A minha maior escola

Foi o toque da viola

E os versos dos cantadores.

 

Meu verso cantou amores, 

Saudade, mágoa, paixão

Já cantou as alegrias

De uma noite de São João

Cantou fartura na mesa,

Também cantou a tristeza

De uma mesa sem pão.

 

Os meus versos se juntaram

Ao violão do boêmio

Foram comigo à choupana

Teatro, colégio e grêmio

Cantei no sertão, na praia,

Ganhei beijos, sofri vaia,

Fui expulso, ganhei prêmio.

 

Estes versos caipiras

De andar estão cansados

Foram bater em Brasília

Disseram aos deputados

Bem como aos senadores

Que nossos trabalhadores

São todos injustiçados.

 

O homem que é um verdadeiro clássico da poesia popular contemporânea, um dos maiores poetas vivos deste país, por incrível que possa parecer, não passa de um Zé, mas não é um Zé qualquer. É do tamanho de um Zé Praxedes. Da estatura de um Zé da Luz, em quem se inspirou e a quem tanto cultua. É Zé Laurentino, o menino do sítio Antas.

Este homem de palavra

Este homem de talento

Produziu da sua lavra

De poemas, mais de um cento

É alegre e sorridente

Chora quando está contente

E é feliz como um menino.

Quem o conhece, o aclama

Que viva sempre essa chama!

Chamada Zé Laurentino.

Parabéns, poetinha! Boa Noite a todos!

Muito obrigado!