A notícia mais quente da semana e ao mesmo tempo a mais mobilizadora dos meios de comunicação nacional, no momento, foi a expulsão da estudante Geisy Arruda, 20 anos, do quadro de estudantes da Universidade Bandeirantes (Uniban).
A moça da pauta, uma jovem reboculosa de cabelos nitidamente transformados e com relativo excesso de adiposidade causou espécie ao inexplicável universo dos machos de São Bernardo do Campo-SP, quando comareceu para assistir aula com um vestidinho vermelho, com pano sobrando nas mangas e escasso na parte de baixo.
Inevitavelmente lembrei de um xote cantado por Gonzagão, lá pelo final dos 70 e inícios dos anos 80, de autoia de Luiz Ramalho que vale a pena lemebrar a letra inteira:
"Comadre Joana sempre reclamou
Da minissaia que a filha tem
O namorado se invocou também
E certo dia pra ela falou:
Tua saia, Bastiana, termina muito cedo
Tua blusa, Bastiana, começa muito tarde
Mas ela respondeu: Oi, facilita
Pra dançar o xenhenhém, oi, facilita
Pra peneirar o xerém, oi, facilita
Pra dançar na gafieira, oi, facilita
Pra mandar pra lavadeira, oi, facilita
Pra correr na capoeira, oi, facilita
Pra subir no caminhão, oi, facilita
Pra passar no ribeirão, oi, facilita"
Mas, ora vejam só!
Se lá em tempos pretéritos (já se passaram 20 anos da morte do Rei do Baião) isto já era levado na onda, já se tinha tornado coisa banal, qual mesmo o sentido de tanta balbúrdia por causa de um vestido (ou minissaia) que termina mais cedo? Um olhar crítico sobre o fenômeno, completamente desprovido de juízos de valor é impossível.
O fato de conviver há mais de 29 anos com jovens universitários, tanto na condição de aluno quanto exercendo a docência, me dá uma certa noção no sentido de falar de um determinado lugar. Este lugar, em última instância está junto da tolerência. Posso afirmar que já vi quase tudo neste sentido (sem duplo sentido) quando se trata de moças de saias curtas e pernas cruzadas. Porém, nunca saí do meu lugar de educador, inclusive aconselhando, quando achei necessário, algumas a se protegerem.
O que causa espécie também, por outro lado, é que as mulheres conquistaram tal espaço no mundo moderno que lhes permite usar e, às vezes, abusar no uso da (pouca) roupa. Entretanto, isso virou uma banalidade de tal ordem que nem vejo mais as expressões de surpresa ou mesmo felicidade geral da macharia abestada com a passagem requebrante de qualquer jovem, a não ser que chame a atenção pelo conjunto da obra.
"E aí me dá uma tristeza no meu peito / feito um despeito de eu não ter com quem contar...", pois o prolbmea é que a moça em pauta, pelo conjunto da obra não mereceria atrair para si tanta atenção. Afinal, ela estava vestida para dois eventos: uma aula e depois uma festa. Qual o problema? Qual o problema em gostar ou não de suas roupas ou do seu jeito de vestir e andar balançando seu patrimônio apertado naquele vestidinho curto?
Se ela tivesse se ofendido e (feito Maria Brexita, uma doida de saudosa memória, lá de Juazeirinho), num gesto de desespero, mostrado as partes pra quem quisesse ver, exibido o que não devia, ao menos naquele lugar reservado ao saber... praquele magote de marmanjos aparentemente obsediados... eu até admitiria a reação.
Todavia, apenas pelo uso da roupa, confesso que ela passaria por mim em qualquer lugar público ou privado merecendo, no máximo, um "olhar de conferência", como compete a 9 de cada 10 homens que eu conheço. O que queriam então aquela macharada ensandecida escrachando a pobre moça com palavras de ordem e gritos de p... p... p...! E olhe que nem sei se ela é ou não. Porém, tem direito de andar, ir e vir, sem que se berre em coro que ela é isto ou aquilo.
Tenho certeza que muitas moças, centenas, milhares, em vários recantos deste país, têm ido às aulas, às missas, aos shopping centers com trajes idênticos e, às vezes menos compstos na parte de cima. Mais uma vez indago: qual o problema? Tenho certeza que boa parte daqueles jovens ensandecidos e defensores da moralidade e dos bons costumes que a UNIBAN protegeu expulsando a jovem, já fumou maconha na universidade ao menos uma vez, já deu um amasso escandaloso na universidade ao menos uma vez, já fez isto em outros ambientes menos indicados ao menos uma vez. Qual o problema?
É bom lembrar que os linchamentos começam desse mesmo jeito. E aí as catarses cletivas acontecem, assim como em tempos muito remotos homens de carne e osso eram jogados aos leões para o divertimento da aristocracia.
Creio que nossa sociedade andamos perdendo coisas. Uma delas, sem dúvidas é o verdadeiro senso de preservação dos nossos direitos dos direitos dos outros, do exercício da cidadania e da justiça, da tolerância, do bom senso. Se não, coisas como essas não aconteceriam. E, se acontecessem teriam sido resolvidas no âmbito da própria instituição, sem maiores problemas, antes que tomasse tais proporções.
Pensando bem, acho que a moça perdeu muita coisa. Porém, pelo desenrolar dos fatos, ela sairá ganhando depois e muito. Perdemos nós todos brasileiros, e muito.