5 de março de 2017

OMBROS CANSADOS


Sobre mote do poeta repentista Luciano Leonel eu compus duas estrofes.
Compartilho com vocês.

I
Vou dormir pois eu sei que a madrugada
Poder ser o meu bálsamo mais puro
Minha mente cansada eu esconjuro
Pode até conduzir meu peito ao nada
A carcaça sofrida e fatigada
Testemunha o sofrer e eu não nego
Essas marcas no corpo qu'eu entrego
Mostram quão foram duras minhas penas
Pros meus ombros cansados quero apenas
O alívio do peso que carrego.

II
Uma noite de sono já não basta
Por suprir a carência de descanso
Este homem em busca de remanso
Sente mais sua engrenagem gasta
Não que eu seja qualquer iconoclasta
Pois imagens preservo do meu ego
Mas me sinto o tal "vidente cego"
Que não vê nem prevê coisas amenas
Pros meus ombros cansados quero apenas
O alívio do peso que carrego.

20 de fevereiro de 2017

Glosas


O poeta Acrizio de França sugeriu o mote no Clube do Repente.
Ensaiei uns versos. Aqui estão.


Quanto mais eu conheço a humanidade
Mais eu sinto é preciso fazer mais
Há demandas tão grandes, tão reais
Dentre tantas, destaco a caridade
Pouco a pouco se perde em qualidade
Tanta coisa, que eu sei, pode valer
Pra quem dá e pra quem o receber
Um só gesto de amor é desafio 
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!


Bote aí dez por cento de cobiça
E mais vinte de inveja e de ganância
Com mais dez de avareza e arrogância
Faz quarenta. Mais dez só de preguiça
Some vinte da gula que atiça
A luxúria, a soberba e o poder
Com a ira mais trinta e posso ver
São pecados demais que não premio
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!


O amor é a fonte mais viçosa
Do querer desejar sem nada em troca
Salta igual grão de milho pra pipoca
Mas depois é brandura saborosa
E a serena doçura melindrosa
Faz o peito explodir sem perceber
Que o segredo da vida e do viver
É a calma que vem depois do cio
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!


Imagine o sujeito que não ama
Na verdade, nem posso imaginar
Ser possível viver sem se amar
Como O Livro ensina, até proclama
Tem amor que termina numa cama
Tem amor que se acaba sem saber
Que viver é bem mais que a dois viver
E é por isso que amor eu planto e crio
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!


Eu amei desde cedo, em tenra idade
Criei calos na pele e coração
Mergulhei sem saber na imensidão
A buscar no amor toda verdade
Hoje assumo: a única vontade
É amar sem pudor e sem temer
Vir de novo a sentir e a sofrer
Desamor qual inverno com seu frio 
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!


Não se engane, o amor é traiçoeiro
Eu conheço os caminhos e percalços
Já pisei com seguros pés descalços
Sobre as brasas do amor num fogareiro
Se o amor não combina com dinheiro
É possível amar sem nada ter
Pois amor não combina com poder
Ponho a venda nos olhos e confio
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!






2 de janeiro de 2017

RESILIÊNCIA

Gira a terra. Sobre ela águas e ondas e areia e vento Tudo se move Verga-se o coqueiro Imponente, inclina-se a dizer: "Vergo, mas não quebro!" E aqui reside uma sabedoria de eras.

14 de dezembro de 2016

ANDORINHA


Um, dois, três...
Vão-se assim enfileirados
Uns sonhos que andavam por aqui.
Se não fora o etéreo laço que, à toa, atirei
Certamente, nem uma pena da asa sobraria
Desta andorinha pra tecer os fios do meu inverno.

26 de novembro de 2016

SOBRE o amor

A poetisa Constância Maria ofereceu o Mote no Clube do Repente e eu me animei pra arriscar em duas glosas. 👇

Aprendi que a paixão tem dois destinos
Quando explode num peito sonhador
Numa metamorfose vira amor
Ou falece, sem vela, enterro ou sinos
Tempestade que lança em desatinos
Nunca pede perdão, nem se retrata
De amar fui e sou cardiopata
Quando de um coração me vejo expulso
É na força do amor que pego impulso
Pra seguir nessa vida que maltrata.

Toda vez que caí me levantei
Bati logo a poeira e fui seguindo
Cuidadoso, o caminho construindo
Sem pisar no buraco onde pisei
Eu amei, eu sofri, de novo amei
É assim se a paixão me arrebata
E se meu miocárdio me delata
Trepidando tum-tum, em dor convulso
É na força do amor que pego impulso
Pra seguir nessa vida que maltrata.