16 de abril de 2017

NASCIDO DUAS VEZES

Vendo tantas mensagens religiosas por estes dias, uma me chamou a atenção. Jesus, já na cruz, olha para sua mãe e o discípulo João e lhes diz: "Mulher, eis o teu filho...eis a tua mãe".

Fez-me lembrar, não sei porquê, de uma longa história que tento contar resumidamente aqui.

A jovem senhora tinha 24 anos quando trouxe à luz o terceiro filho: o mais velho ainda a completar 2 anos, o segundo com 10 meses e 6 dias. O caçula nasceu quando o pai já estava no Rio de Janeiro "tentando a vida" no ofício de sapateiro. Ela na casa dos pais dele, numa cidadezinha do interior da Paraíba. 

Este mais novo rebento, quando contava 8 meses, foi vitimado por uma diarréia sem fim que teve por consequência uma desidratação. Naquele tempo e naquelas condições nutricionais era quase uma condenação à morte.

Depois de tratado por dois ou três dias com remédios caseiros, o que se tinha, o quadro foi agravado e ela decidiu levar seu bebezinho a Campina Grande.

Todos diziam em uníssono: "vai perder tempo e dinheiro (algo raríssimo naqueles tempos de pobreza grande). Esse menino não tem mais jeito. Entregue-o a Deus. Veja a 'nata' nos olhinhos dele, já é um anjinho..."

Então, Maria Eneide afirma resoluta:
"Me arranjem o dinheiro da passagem que eu levo ele a Campina. Se morrer eu o trago de volta nos meus braços pra enterrar aqui."

A cunhada Beatriz arranjou o dinheiro e ela, de menino empacotado e aconchegado nos braços, se mandou num ônibus da linha pra Campina Grande, a velha "capital do interior". Destino: casa dos irmãos e irmãs, todos sapateiros, ali entre as ruas Chile e Paraná, entre Monte Castelo e Nova Brasília.

De pronto levaram o menino a um farmacêutico famoso no bairro, Mamede Moisés Raia, que aplicou injeção e prescreveu outros remédios e cuidados.

Quinze dias depois Dona Neide retorna a Juazeirinho com o menino nos braços, desta feita, não mais às portas da morte, mas parrudinho e esperto. Tudo vira festa!

O menino mantém até hoje umas olheiras meio hereditárias e um pouco daquele olhar meio desolado, de quem quase se despede da vida sem vontade e sem dela entender muito, mas cresceu saudável e está aqui contando a história.

A bem da verdade, essa não é a história do menino, mas a história de Dona Neide, uma dessas anônimas heroínas brasileiras, capazes de dar à luz duas vezes a um mesmo ser.

5 de março de 2017

OMBROS CANSADOS


Sobre mote do poeta repentista Luciano Leonel eu compus duas estrofes.
Compartilho com vocês.

I
Vou dormir pois eu sei que a madrugada
Poder ser o meu bálsamo mais puro
Minha mente cansada eu esconjuro
Pode até conduzir meu peito ao nada
A carcaça sofrida e fatigada
Testemunha o sofrer e eu não nego
Essas marcas no corpo qu'eu entrego
Mostram quão foram duras minhas penas
Pros meus ombros cansados quero apenas
O alívio do peso que carrego.

II
Uma noite de sono já não basta
Por suprir a carência de descanso
Este homem em busca de remanso
Sente mais sua engrenagem gasta
Não que eu seja qualquer iconoclasta
Pois imagens preservo do meu ego
Mas me sinto o tal "vidente cego"
Que não vê nem prevê coisas amenas
Pros meus ombros cansados quero apenas
O alívio do peso que carrego.

20 de fevereiro de 2017

Glosas


O poeta Acrizio de França sugeriu o mote no Clube do Repente.
Ensaiei uns versos. Aqui estão.


Quanto mais eu conheço a humanidade
Mais eu sinto é preciso fazer mais
Há demandas tão grandes, tão reais
Dentre tantas, destaco a caridade
Pouco a pouco se perde em qualidade
Tanta coisa, que eu sei, pode valer
Pra quem dá e pra quem o receber
Um só gesto de amor é desafio 
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!


Bote aí dez por cento de cobiça
E mais vinte de inveja e de ganância
Com mais dez de avareza e arrogância
Faz quarenta. Mais dez só de preguiça
Some vinte da gula que atiça
A luxúria, a soberba e o poder
Com a ira mais trinta e posso ver
São pecados demais que não premio
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!


O amor é a fonte mais viçosa
Do querer desejar sem nada em troca
Salta igual grão de milho pra pipoca
Mas depois é brandura saborosa
E a serena doçura melindrosa
Faz o peito explodir sem perceber
Que o segredo da vida e do viver
É a calma que vem depois do cio
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!


Imagine o sujeito que não ama
Na verdade, nem posso imaginar
Ser possível viver sem se amar
Como O Livro ensina, até proclama
Tem amor que termina numa cama
Tem amor que se acaba sem saber
Que viver é bem mais que a dois viver
E é por isso que amor eu planto e crio
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!


Eu amei desde cedo, em tenra idade
Criei calos na pele e coração
Mergulhei sem saber na imensidão
A buscar no amor toda verdade
Hoje assumo: a única vontade
É amar sem pudor e sem temer
Vir de novo a sentir e a sofrer
Desamor qual inverno com seu frio 
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!


Não se engane, o amor é traiçoeiro
Eu conheço os caminhos e percalços
Já pisei com seguros pés descalços
Sobre as brasas do amor num fogareiro
Se o amor não combina com dinheiro
É possível amar sem nada ter
Pois amor não combina com poder
Ponho a venda nos olhos e confio
Coração sem amor é feito um rio,
Sem ter água no leito pra correr!






2 de janeiro de 2017

RESILIÊNCIA

Gira a terra. Sobre ela águas e ondas e areia e vento Tudo se move Verga-se o coqueiro Imponente, inclina-se a dizer: "Vergo, mas não quebro!" E aqui reside uma sabedoria de eras.