13 de novembro de 2008

AUGUSTO

Ontem, 12 de novembro, foi aniversário da morte do poeta. Meu primeiro contato com Augusto dos Anjos foi através do Círculo do Livro, pois apesar de ter lido "versos íntimos" num livro de literatura (desses didáticos) do qual não lembro agora, vim conhecer de perto quando adquiri o livrinho, capa preta, dura, e o recebi pelos correios. Sempre tive uma certa fascinação por receber coisas pelos correios. Fui um sujeito de muitas cartas. Recebidas e enviadas. Cartas longas. Ainda menino fiz amizade com um outro garoto da cidade de Itapira, interior de São Paulo, juntamente com uma prima sua. Eu e Gilberto, meu irmão, fizemos amizade com os dois a partir de um quadro de correspondência dum 'gibi', acho que da disney. Resultado é que nos correspondemos durante alguns anos, trocamos fotos das cidades e depois sumimos no ôco do mundo. Naquele tempo, isto era tão ousado quanto o orkut hoje. Menos inocente e potencialmente menos invasivo também. Voltando a Augusto. Passei o dia ansioso pra chegar a noite e começar a leitura. Lembro como se fosse hoje, num apartamento de aproximadamente 20 metros quadrados onde morávamos eu, Gilberto e Ze Neto, na Rua João da Silva Pimentel, vizinho à Dão Silveira. Queria ficar lendo até tarde e eles precisavam dormir. Fui ler o livro no apartamento de José Inaldo, numa rede armada no meio da kitinete e quando cansava colocava-o sobre uma pilha de caixas vazias de canjiquinha que, por ironia, fazíamos uma espécie de 'coleção'. Fiquei tão impressionado com a leitura de 'EU' que ainda hoje lembros desses detalhes. Só dormi quando acabei de ler o livro e aquilo marcou definitivamente o meu entendimento sobre a poesia e a literatura. Era um período de muita 'fossa' e eu literalmente viajei nas esquisitices de Augusto dos Anjos. Fiquei atordoado com sua morbidez clássica, com aquele palavreado estranho e nunca mais o larguei. Tenho vários livros sobre sua obra e até hoje conservo o seu livrinho que, estranhamente, trazia o título de "Eu & Outra Poesia". Assim mesmo, no singular. Aqui a prova! Não me impressionei tanto com "versos íntimos", que já conhecia, Solilóquio de um visionário, Monólogo de uma sombra... belíssimos. Três versos especialmente deste soneto "Budismo moderno" me prenderam a atenção - pelas imagens que consegue criar - e estão destacados abaixo. "Tome, Dr., esta tesoura, e... corte Minha singularíssima pessoa. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração, depois da morte? !Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também, das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se, portanto, minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo; Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo!" Quando lia sobre astrologia descobri que meu signo, ou algo parecido que não recordo agora, era regido por Plutão, algo a ver com a morte. Sempre tive enorme curiosidade sobre o assunto e nos estudos de psicologia foi um dos temas que mais me atraíram. Plutão foi 'rebaixado' da condição de planeta e eu nem sei se ainda continua com o mesmo poder. Augusto dos Anjos, entretanto, com sua poesia funesta continua fazendo minha cabeça. Seu cientificismo, em minha humilde opinião, não o diminui em nada como poeta grande que é, nem pelo fato de ter escrito um livro só. É um clássico! O tempo prova isto.

2 comentários:

Débhora Melo disse...

Eita, Rangel!

Agora vc me fêz viajar anos luz...
Tinha mais ou menos uns 7 a 9 anos, quando escutei minha adorável tia( a que mais amo) declamar uma poesia .
E todas as vezes que a encontrava, pedia-lhe sempre para contar histórias de filósofos, reis, escritores, poesias , contos, anedotas... até mesmo Bocage era introduzido nesses momentos de puro deleite literário( nos limites de conhecimento da própria).
Toda essa explicação , para dizer-lhe que a poesia da qual ela sempre finalizava esses momentos que se tornaram eternos era dele, Augusto dos Anjos, e a última estrofe é marcante, pelas palavras fortes e a entonação da voz que minha querida tia proclamava.


Versos Intimos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


Essa poesia eternizou-se . Porém, a mais bela
para mim é Ecos D´Alma .


Um abraço,

Débhora Melo.

RANGEL JUNIOR disse...

Pois então!
Imagine a força de "Sou uma sombra, venho de outras eras". É, de fato, fantástico. Que bom!