25 de abril de 2009

ROBERTO CARLOS NO BAR DO BRITO

O Bar do Brito nunca foi frequentado por Roberto Carlos. Inclusive sua música não é corriqueira por lá, vez que a maioria dos cantores que fazem ponto por ali fazem da chamada MPB a base do seu repertório. Mas qualquer um que tenha passado dos 45 e negue a passagem de Roberto Carlos em sua vida, ou não viveu tudo que a adolescência lhe ofereceu ou, de fato, simplesmente não gostava e pronto. Por estes dias o Brasil inteiro, isso mesmo, comemorou o aniversário de Roberto Carlos e seus 50 anos de carreira musical. Para além de Cachoeiro de Itapemirim, onde meu irmão Gilberto está morando, por toda parte fizeram festa pra comemorar o aniversário do "Rei da Juventude". Mas qual juventude? Valho-me de um trecho de bela prosa do Pensador Daniel Duarte falando sobre Sumé, um certo Vênus Bar e Roberto Carlos. "Diuturnamente o disco era tocado em volume que abrangesse parte da rua. Todos que viviam ou passavam próximos ao bar aprendiam assim as canções. Começavam então as associações que “fulano não podia escutar tal música que ‘roía’ por fulana”. Ocorriam então as farras homéricas cujo epicentro se dava por ocasião da festa padroeira, que se comemora a oito de dezembro em devoção a N. Sª da Conceição. Roberto chegava assim em Sumé por intermédio do Vênus Bar que antecedia a todos e, dizem alguns, até mesmo a Campina Grande. Talvez por existir uma reserva de mercado junto aos motoristas e cobradores. Roberto, natural de Cachoeiro de Itapemirim, chegava pela Viação Itapemirim. Sem muita pompa, mas com o seu lugar reservado na radiola e nas mentes e corações de muitos sumeenses que nutriram amores e desenganos embalados nas suas canções. Hoje Roberto chega de outra forma. Chega pelas rádios e pela televisão. Menos ouvido, menos amado, talvez até esquecido. Exceto por aqueles que, independente da idade, tiveram o filme da existência com a trilha sonora das canções que ele fez para todos. Não existe mais o Vênus Bar, a Itapemirim não passa mais por Sumé com os seus ônibus Ciferal. Hoje é a Viação Penha que transporta sonhadores e desiludidos em modernos e confortáveis veículos. O passado já não merece a lembrança de muitos, mas para mim estas recordações me matam". Pois foi exatamente este final que me transportou para uma das memoráveis noitadas no Bar do Brito. Num tempo em que o dono, revelando enorme disposição, abria o portão - sim, em vez de porta o Bar do Brito tem portão de grade de ferro - ao público nas terças-feiras, mas quem aparecia por lá mesmo era meia dúzia ou mais de amigos mais próximos e invariavelmente ele entrava na conversa e na farra, a depender da inspiração. Este aprendiz de senhador, à época, morava na mesma rua, umas oito casas descendo a ladeira da Rua Dorinha Vasconcelos. Na esquina acima a casa da minha Mãe e vizinho à esquina abaixo a minha casa e o Bar do Brito bem no meio. Dá pra imaginar o caminho e a frequência... Numa dessas terças-feiras - por volta de 1998 - eu aportei por lá e depois das 9 da noite apenas eu, Brito, Sônia, Cristina, Aparecida e João... o violão chega às minhas mãos e o sarau vai se desenhando no nosso horizonte. Pelas tantas o assunto musical é Roberto Carlos e eu puxo uma prosa com o 'Rei' cantando um de seus sucessos das antigas. Não deu outra e daí por diante foi um verdadeiro 'especial' somente de canções que nos remetiam inevitavelmente a um passado relativamente recente, mas cheio de grandes e doces lembranças, reminiscências de um tempo em que nossos compromissos com a alegria e o sonho eram embalados em larguíssima medida pela música de Roberto. A esta altura da curtição - essa palavra já significou muito - Sônia bebericava seu Campari, Brito embalava na cerveja e a música nos inebriava a todos quando em dado momento, já pela madrugada, dedilho a introdução de 'O Divã'. Uma canção extremamente autoral e autobiográfica que ainda hoje emociona muitos corações. "Relembro a casa com varanda / Muitas flores na janela / Minha mãe lá dentro dela / Me dizia num sorriso / Mas na lágrima um aviso / Pra que eu tivesse cuidado / Na partida do futuro / Eu ainda era puro..." A música vai rolando e quando chega o refrão acontece o quase inesperado, mas perfeitamente normal pra quem entende do assunto. "Essas recordações me matam / Essas recordações me matam / Por isso eu venho aqui..." A voz começou a embargar, segurei a onda pra continuar, as lágrimas foram brotando e a música teve que ser interrompida porque o Bar virou um pranto só e paramos todos pra chorar. Desse jeito! Depois do choro coletivo um riso solto de quem acaba de fazer uma catarse coletiva e tentei retomar a música do seu início... não de outra! Na hora do refrão, o cantor, já deveras influenciado pelas circunstâncias e uns tantos líquidos ingeridos, engasgou novamente e a música ficou pra depois. Poucos minutos depois resolvemos encerrar a noitada e recolhermo-nos ao aconchego dos nossos lares, felizes, leves, viajando naquela onda, na curtição daquele momento único, singular, irrepetível como tantos outros que agora me rodeiam e me inundam de saudade.

5 comentários:

Débhora Melo disse...

Rangel,


Estou emocionada por encontrar aqui uma homenagem a um dos cantores que admiro, e como fã Incondicional eu digo: que AMO!
Roberto Carlos fez e faz parte da minha vida, em momentos de paz, de melancolia, de saudade... é a ele que recorro, que escuto e me afundo em lembranças, em histórias que não voltam mais e histórias presentes.
São tantas letras que falam de nós,de cada fase que passamos, está ali, nas sábias palavras musicalizadas do REI.
Rotina, Comentários,A distância, De tanto amor, Falando sério,Pelo avesso, Traumas, Amiga( em parceria com Maria Betânia), Mais uma vez...inúmeras, inúmeras e inúmeras músicas que fazem parte de mim, da minha história.
Ouso aqui contar umas dessas da qual a música me marcou para sempre e quando me perguntam qual música que mais gosto, eu a cito.
Na minha adolescência, eu tinha um fã(anônimo), mandava cartinhas e jogava sempre no jardim da casa dos meus pais... numa dessas cartinhas, deparei-me com letra dessa música escrita em punho, fiquei emocionada, por saber que essa pessoa me conhecia bastante e a sua sensibilidade o fez mandar para mim. Concluo que era um adolescente romântico(coisa rara em um homem de hoje em dia) fiquei feliz e corri para escutar a música, fiquei o dia por completo a escutar.Nunca soube quem era o admirador, uma pena!

São tantas histórias minhas,suas, de amigos, de ex-namorados, de tias...também tinha um vizinho que escutava nas alturas, na esquina jáse ouvia a música de lançamento de Roberto Carlos... ele faz parte, parte de nós.
E algumas recordações "nos matam" , nao é Rangel?
Atraves das suas histórias você me faz lembrar coisas, recordar momentos antes esquecidos, pois procuro sempre viver o presente e sempre penso que o passado são experiências vividas e ultrapassadas, no entanto vem Rangel Junior e faz-me refletir , o quanto nossas reminiscências estão acesas em algum lugar de nós, precisando apenas de um toque para se iluminar numa grande voltagem.
Que bom que você existe!!!

A música da qual me referi é OLHA, segue a letra:


Olha você tem todas as coisas
Que um dia eu sonhei prá mim
A cabeça cheia de problemas
Não me importo, eu gosto mesmo assim
Tem os olhos cheios de esperança
De uma cor que mais ninguém possui
Me traz meu passado e as lembranças
Coisas que eu quis ser e não fui
Olha você vive tão distante
Muito além do que eu posso ter
E eu que sempre fui tão inconstante
Te juro, meu amor, agora é prá valer
Olha, vem comigo aonde eu for
Seja minha amante, meu amor
Vem seguir comigo o meu caminho
E viver a vida só de amor.


Um abraço, ao meu querido e quase único romântico, Rangel!

KÁTIA LIMA disse...

BACANA, MUITO BACANA!
CURTO ROBERTO CARLOS, ACHO DE UMA INTELIGENCIA, DE UM ROMANTISMO QUASE QUE INIGUILÁVEL.
E FAZEM MESMO PARTE DA GENTE, AS VEZES ATÉ CHORO EM ESCUTÁ-LO.
LEMBRO DE TANTAS COISAS, TANTOS MOMENTOS... CONCAVO E O CONVEXO, ALÉM DO HORIZONTE, SÃO MUITO BONITAS.
ACHO LEGAL AS HISTORIAS DE VCS,CADA UM É CADA UM. BACANA, MUITO BACANA.
EI E TU É ROMANTICO MESMO, A NOSSA AMIGA ACERTOU, É TÃO RARO ALGUEM ASSIM, QUE ATÉ JA VIROU UM SONHO... KKKK.

FUI LER O ARTIGO DE TAIGUARA, RAPAZ, ELE TEM RAZÃO, MAS... EU ADORO SHOPPING E TUDO AQUILO...BATER PERNA É BOM MESMO KKKKK....

ABRAÇOS A TODOS.

RANGEL JUNIOR disse...

Que lindo!!!!!!!!
Maravilhaaaaaaaaa!
Um final de semana feliz
pra vocês.

Aninha Santos disse...

Essas recordações me matam...

Era a música preferida da minha mãe. Me fez chorar também...

Xêro

Mirin disse...

Ah vocês estão querendo acabar comigo. Pois essas e muitas outras recordações me matam.... Campina grande Grande foi o berço de minha infância e parte da juventude e as músicas de Roberto Carlos foram e são ainda hoje reflexões de minha alma, histórias tiradas de minha hisorias e imaginar uma noitada assim num bar que sonho em conhecer... gente é demais. Nada melhor do que Roberto pra provocar catarses, limpando a alma para as próximas enxurradas de sentimentos. Adorei sua narrativa e confesso que a saudade aumentou ainda mais. Abraços.