3 de maio de 2009

BOTIJA, SONHOS E MENINICE

Eu era ainda mais menino e ouvia muito sobre achamento e desenterro de botijas. Histórias de fortunas e encantamento, de decepção e tristezas. A bem da verdade, uma botijazinha até que não faria mal a ninguém, principalmente aos menos favorecidos pela sorte. Mas, ora, se o sujeito já é desfavorecido pela sorte, como iria, logo ele, ganhar um presentão desses?

Pra ter sucesso com uma botija é preciso seguir algumas regras: primeiro, como é sabida de todos a dificuldade do ser humano em guardar segredos, não contar nada pra ninguém sobre a visita do sujeito que já 'passou dessa pra melhor' e o escolheu como felizardo ganhador de um tesouro, é condição fundamental para assegurar que a botija esteja inteirinha lá onde ele indicou; segundo, para desafiar aquilo que é uma fraqueza e a garantia de sobrevivência da espécie, não sentir medo, nem que o capiroto apareça na hora em meio à escuridão, pois a botija deve ser desenterrada à meia-noite; terceiro, como a maioria dos seres humanos é terrivelmente apegada àquilo que constrói ou ao seu lugar, depois de arrancá-la do chão o indivíduo deve juntar suas coisas, pegar o tesouro e partir pra outro lugar, haja o que houver.

Caso essas requisitos não sejam rigorosamente cumpridos há grande chance de o sujeito ver o seu rico tesouro esfumaçar-se no ar ou então, ao desenterrá-lo, encontrar apenas um pote ou baú repleto de tralhas como cachimbos, arremedos de passarinhos, chaves velhas, cacos de panelas, pedaços de papel amarrotados de fiado de bodega, anzóis enferrujados, grandes botões de vestido ou de paletó, carretéis sem linha, corrimboques cheios de rapé, mechas de cabelo...

Nunca conheci alguém que tivesse recebido uma botija e ficado rico, mas é claro que se tivesse conhecido era porque a coisa não funciona do jeito que dizem. Há que se guardar o segredo por toda vida. O 'segredo' do segredo eu vou contar: a botija foi enterrada por alguém, provavelmente avarento ou muito precavido, que juntou aquela fortuna às escondidas, num tempo em que as mulheres nem sonhavam quais as posses do marido, tão-pouco onde ele as escondia; também num tempo que que não havia caderneta de poupança, o único banco era o BB e ainda somente nas capitais.

Quando o sujeito ia juntando um bom bocado em moedas de ouro, prata e cobre, algumas jóias ou pedras preciosas e aparecia um momento de turbulência política, com medo de perder as economias, ele botava tudo num pote de barro ou baú de madeira de lei, ia lá no meio do mato, enterrava tudo às escondidas e traçava um breve mapa mental para que somente ele pudesse resgatá-lo depois. Alguns morriam antes e por não terem tido tempo de avisar à família ficavam como almas penadas, atormentadas por aquele segredo até que algum escolhido para ser o felizardo desenterrador da botija o faça conforme as regras e só então aquela alma sofrida haverá de descansar. Dizem que muitos fazendeiros, donos de engenhos e até cangaceiros de Lampião se valeram dessa tradição e ainda há muita botija espalhada por esse sertão sem fim esperando por um 'escolhido' corajoso que faça a coisa certa e liberte aquelas almas penadas do sofrimento.

Vez por outra me pego matutando em quão curta é a vida pra gente realizar tantos projetos; isso pra quem sonha além da conta e vive com a cabeça nas estrelas, mesmo com os pés fincados no chão. Tenho pensado em preparar uma botija com alguns pedaços de canções, trechos de poemas, contos nunca concluídos, sinopses de romances que nunca começaram, roteiros de filmes, pequenos solos de violão com melodias incompletas e um pedaço do meu coração pra ver se um dia... vai que eu 'passe dessa pra melhor' (?) de forma repentina e já teria ao menos a possibilidade de fazer a curiosidade de algum lunático que, acreditando em botijas, possa transformar tudo isso depois em algo que, se não vier a ser um tesouro, ao menos poderá provocar um turbilhão de sentimentos que podem até aliviar algumas dores do mundo; quem sabe até fazer alguém sorrir...

2 comentários:

KÁTIA LIMA disse...

COMO É BOM SONHAR...COMO É BOM FANTASIAR.
EU QUERIA ENCONTRAR UMA BOTIJA QUE AO ABRI-LA TODOS SERIAM CONTAGIADOS POR SORRISOS.
SORRIR, SE ALEGRAR COM O OUTRO, ISSO É QUE É BOM.
A BOTIJA DA ALEGRIA, É ISSO QUE EU QUERO ENCONTRAR.


BESOS, BESOS, BESOS A TODOS E MUITA ALEGRIA NO AR.

Fabiana Folly disse...

Minha avó contou que certa vez teve um desses sonhos de botija. Ela era de Recife, Glória de Goitá,mas que ao desenterrar tal tesouro de tudo viu no meio da escuridão... O medo foi tanto que largou a botija e foi embora, ao longe viu o morto chorando no buraco feito...
Escrevi no meu blog o que aconteceu comigo, enquanto escrevia um conto sobre a botija...
Rsrsrsrs...
Abraços
www.adesbocada.blogspot.com