21 de dezembro de 2007

SOBRE OS SONHOS...

QUAIS SÃO OS SEUS?
Fico me perguntando quando em vez se tenho o direito de me imiscuir nos sonhos dos outros.
Confesso! É uma curiosidade que tenho e faço desta singela publicação e confissão um repto a Taiguara, a você que me lê.
Leia Mário Quintana.
"Se as coisas são inatingíveis... ora! não é motivo para não quere-las... Que tristes os caminhos, se não fora a magica presença das estrelas!"
Os meus amigos todos, creio eu, devem ter seus sonhos. Uns mais secretos, outros inconfessáveis, outros que devem ser públicos. Você confessaria o seu maior sonho?
Este Ipê Amarelo (que foi alvo até de projeto de lei para que se transformasse na árvore símbolo do Brasil) será minha árvore de natal. Ele está plantado no canteiro central da aveninda Floriano Peixoto, quase em frente à Churrascaria do Alexandre, no Centenário, em Campina Grande.
Não fosse árvore, não estivesse obrigada a aceitar e conviver com cachorros que amiúde mijam em seu tronco, fumaça de óleo diesel, bêbabos que o utilizam como escora na travessia da avenida... não fosse tudo isso, quem sabe quisesse ser somente sombra, somente flores.
Imagino assim o sonho do Ipê: uma árvore que sonha ser somente flor, uma árvore transformada em flor. Talvez por isso eles se concentrem durante o ano inteiro, fiquem feinhos, ressequidos, sem folhas... depois vão juntando forças, lapidando seus sonhos internamente e se preparando para o grande momento entre outubro e dezembro.
Desta vez alguns Ipês, teimosos, ainda exibem sua exuberância floral em plena véspera de natal. Muitos já perderam completamente as flores (já haviam perdido as folhas antes). Outros, como estes da foto, com a ajuda do celular, quase se transformam em pintura impressionista.
Vai entender essas árvores! Ando por aí prestando atenção em coisas, em cores, em odores, em gente...
Cá com meus botões eu fico matutando, ruminando (como costuma dizer o filósofo Biu) sobre meus sonhos e a construção de caminhos para realizá-los.
Qualquer hora dessas escrevo sobre eles... Por falar em sonhos, qual a última vez que você parou pra ouvir atentamente um passarinho cantar?

14 de dezembro de 2007

MARKETING CONFUSO

Cada dia me convenço mais de que esse negócio de marketing não é pra quem quer, mas pra quem ou sabe ou ao menos leva jeito. Vou mostrar nas próximos postagens uma pequena prova do que estou dizendo. Vinha eu tranquilamente saindo da feira no último sábado, perto do meio dia, e me deparo com este anúncio. Não resisti. A primeira sensação que tive foi uma mistura de confusão com vontade de rir. O que está mesmo à venda é o carro, claro. Mas reflita e me diga se a mensagem não tá truncada? Quantas mensagens não podem ser tiradas destas imagens e textos? O que está mesmo à venda? De quebra, aproveito e faço aqui um comercial gratuito pro cidadão. Eu, hein?

15 de outubro de 2007

A CAIXA DE BRINQUEDOS

A minha amiga psicóloga Socorro Dantas me presenteou com este belo texto do educador Rubem Alves, como parte de sua referência pela passagem do Dia do Professor. Não conhecia. Agradecido e emocionado decidi de pronto: publico o texto na íntegra. "A idéia de que o corpo carrega duas caixas —uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda— apareceu enquanto eu me dedicava a mastigar, ruminar e digerir santo Agostinho. Como você deve saber, eu leio antropofagicamente. Porque os livros são feitos com a carne e o sangue daqueles que os escrevem. Dos livros, pode-se dizer o que os sacerdotes dizem da eucaristia: "Isso é o meu corpo; isso é a minha carne". Santo Agostinho não disse como eu digo. O que digo é o que ele disse depois de passado pelos meus processos digestivos. A diferença é que ele disse na grave linguagem dos teólogos e filósofos. E eu digo a mesma coisa na leve linguagem dos bufões e do riso. Pois santo Agostinho, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do "uti" (ele escrevia em latim ) e a ordem do "frui". "Uti" significa o que é útil, utilizável, utensílio. Usar uma coisa é utilizá-la para obter uma outra coisa. "Frui" significa fruir, usufruir, desfrutar, amar uma coisa por causa dela mesma. A ordem do "uti" é o lugar do poder. Todos os utensílios, ferramentas, são inventados para aumentar o poder do corpo. A ordem do "frui" é a ordem do amor —coisas que não são utilizadas, que não são ferramentas, que não servem para nada. Elas não são úteis; são inúteis. Porque não são para serem usadas, mas para serem gozadas. Aí você me pergunta: quem seria tolo de gastar tempo com coisas que não servem para nada? Aquilo que não tem utilidade é jogado no lixo: lâmpada queimada, tubo de pasta dental vazio, caneta sem tinta... Faz tempo, preguei uma peça num grupo de cidadãos da terceira idade. Velhos aposentados. "Inúteis" —comecei a minha fala solenemente. "Então os senhores e as senhoras finalmente chegaram à idade em que são totalmente inúteis..." Foi um pandemônio. Ficaram bravos, me interromperam e trataram de apresentar as provas de que ainda eram úteis. Da sua utilidade dependia o sentido de suas vidas. Minha provocação dera o resultado esperado. Comecei, mansamente, a argumentar. "Então vocês encontram sentido para suas vidas na sua utilidade. Vocês são ferramentas. Não serão jogados no lixo. Vassouras, mesmo velhas, são úteis. Uma música do Tom Jobim é inútil. Não há o que fazer com ela. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que se parecem mais com as vassouras que com a música do Tom... Papel higiênico é muito útil. Não é preciso explicar. Mas um poema da Cecília Meireles é inútil. Não é ferramenta. Não há o que fazer com ele. Os senhores e as senhoras estão me dizendo que preferem a companhia do papel higiênico à do poema da Cecília..." E assim fui acrescentando exemplos. De repente os seus rostos se modificaram e compreenderam... A vida não se justifica pela utilidade, mas pelo prazer e pela alegria —moradores da ordem da fruição. Por isso Oswald de Andrade, no "Manifesto Antropofágico", repetiu várias vezes: "A alegria é a prova dos nove, a alegria é a prova dos nove...". E foi precisamente isso o que disse santo Agostinho. As coisas da caixa de ferramentas, do poder, são meios de vida, necessários para a sobrevivência (saúde é uma das coisas que moram na caixa de ferramentas. Saúde é poder. Mas há muitas pessoas que gozam de perfeita saúde física e, a despeito disso, se matam de tédio). As ferramentas não nos dão razões para viver; são chaves para a caixa dos brinquedos. Santo Agostinho não usou a palavra "brinquedo". Sou eu quem a usa porque não encontro outra mais apropriada. Armar quebra-cabeças, empinar pipa, rodar pião, jogar xadrez ou bilboquê, jogar sinuca, dançar, ler um conto, ver caleidoscópio: tudo isso não leva a nada. Essas coisas não existem para levar a coisa alguma. Quem está brincando já chegou. Comparem a intensidade das crianças ao brincar com o seu sofrimento ao fazer fichas de leitura! Afinal de contas, para que servem as fichas de leitura? São úteis? Dão prazer? Livros podem ser brinquedos? O inglês e o alemão têm uma felicidade que não temos. Têm uma única palavra para se referir ao brinquedo e à arte. No inglês, "play". No alemão, "spielen". Arte e brinquedo são a mesma coisa: atividades inúteis que dão prazer e alegria. Poesia, música, pintura, escultura, dança, teatro, culinária: são brincadeiras que inventamos para que o corpo encontre a felicidade, ainda que em breves momentos de distração, como diria Guimarães Rosa. Esse é o resumo da minha filosofia da educação. Resta perguntar: os saberes que se ensinam em nossas escolas são ferramentas? Tornam os alunos mais competentes para executar as tarefas práticas do cotidiano? E eles, alunos, aprendem a ver os objetos do mundo como se fossem brinquedos? Têm mais alegria? Infelizmente, não há avaliações de múltipla escolha para medir alegria..." DIZER O QUE DEPOIS DISTO? UM ABRAÇO GRANDE ÀS (E AOS) COLEGAS DE BATENTE.

4 de setembro de 2007

ABRINDO O BAÚ E CONTANDO HISTÓRIAS - Parte II

A foto é do ano de 1976 ou 1977. Banda Marcial do Colégio Municipal Severino Marinheiro. Desfile do 7 de Setembro. O tocador de bumbo (ou Bombo) sou eu! Era de fato um orgulho nosso, de todos, o desfile do 7 de setembro, dia da Independência Nacional. Começávamos a semana com o hasteamento da bandeira na parte da frente do colégio, em fila, do menor para o maior. Entoávamos o Hino Nacional, devidamente ensaiado antes e com a letra fartamente ensinada no período anterior, principalmente a partir da última contracapa dos cadernos da FENAME. A preparação para o Dia da Independência era algo fantástico. Tempo de extravasar fantasias, reavivar o sentimento patriótico e demonstrar, na prática, como se deveria reverenciar as Armas Nacionais, a Bandeira Nacional, o Hino Nacional Brasileiro. Logo a partir do retorno das férias do meio do ano começavam os ensaios. Os 'escolhidos' para tocar na banda (que era a maior honraria pros meninos) começavam os ensaios em separado e no caso das meninas escolhidas para 'baliza' (que era o maior orgulho do lado feminino) já começavam a treinar as evoluções e malabarismos que iriam fazer à frente da banda e de cada um dos 'pelotões' do desfile. A nomenclatura utilizada talvez não fosse a mais adequada. Entretanto, o nosso sentimento de civismo e comemoração sincera da "independência do Brasil" era algo de arrepiar até os mais insensíveis. A preparação durava ao menos uns dois meses e às vésperas do desfile ensaiávamos diretamente na rua, com banda e tudo o mais. Somente a farda era a surpresa do 7 de setembro. A farda da banda, as indumentárias das balizas, os 'pelotões alegóricos" que ressaltavam belezas nacionais (na linha do ufanismo estado-novista ou do governo do golpe de 64), essa parte mais artística e mais nobre somente era conhecida no dia do desfile. Era pra causar sensação! Na véspera do desfile juntávamo-nos todos da banda pra 'passar' os últimos detalhes e dar o último polimento nos instrumentos e fazer a afinação final. Bumbos-fuzileiros, surdos, caixas, taróis, pratos, cornetas... tudo tinindo com um bom banho de 'kaol' e uma flanela esfregada à exaustão. A saída do colégio era algo fantástico, rodeado de tensão, de expectativa e lá íamos nós, pequenos brasileiros saudando uma independência da qual não tínhamos, a bem da verdade, pouco mais que uma vaga idéia a partir do quadro fantasioso do "Grito do Ypiranga" pintado pelo genial paraibano Pedro Américo. Dois outros momentos eram considerados o ápice da festa: primeiro a passagem em frente ao palanque das autoridades (civis, militares e eclesiásticas - era assim que anunciava o locutor Inácio na difusora), geralmente armado em frente à prefeitura. O segundo momento ficava por conta do 'encontro de bandas' que era o momento em que, em alguma parte do desfile cruzávamos as bandas marciais do "Colégio Novo", com o "colégio Velho". Pra ser fiel à verdade dos fatos, aquele encontro era o momento da velha rixa política entre os Marinheiros (do Colégio Municipal Severino Marinheiro - o Colégio Novo) e os Matias-Vital (do Grupo Estadual Manoel Vital - o Colégio Velho). O 'encontro das bandas' era o cruzamento, em algum momento do desfile, quando as bandas passavam, em sentido contrário e cada uma tentava 'tirar um dobrado' mais bonito ou mais complexo, todos batiam nos instrumentos ao ponto de "rasgar os couros" (já peles hidráulicas) na tentativa de abafar o som da outra banda e comprometer o andamento, o compasso, o ritmo. Apesar da história comprida, vale a pena lembrar que, àquela época, o "Colégio Velho" torcia pra que o 7 de setembro fosse dia de sol, pois, em razão de carências materiais, a maioria das peles dos seus instrumentos eram peles animais e não sintéticas, o que exigia um bom tempo ao sol para "esticar" e garantir a afinação com boa sonoridade. Agenor e Nego Toca que o digam! Eu, à frente da banda, ao lado de Nenen de Jaime, com meu 'fuzileiro', esparadrapo nos dedos, elástico nas baquetas pra garantir uns malabarismos bacanas e uma disposição de "mamar em onça" era o exemplo vivo da alegria e êxtase. O verdadeiro orgulho nacional. De tanta saudade resolvi ir a Juazeirinho assistir ao desfile do 7 de setembro, fotografar pessoas e cenas do desfile pra avivar a memória e fazer tirar um pouco o mofo do meu baú de reminiscências. Sem aquele ufanismo absurdo do governo de 64 creio que o 7 de setembro ficou mais brasileiro, mais real. Passando por Monteiro na semana passada, em um evento da UEPB, ouvindo ao longe o ecoar da fanfarra de algum colégio da cidade, ensaiando pro 7 de setembro, era impossível não arrepiar. Como chorão dos bons, os olhos foram marejando, a voz embotando na garganta e fui saindo aos poucos de perto da roda de conversa pra não ter que dar explicações a ninguém. Afinal, sei lá se iriam entender essa história comprida e mais encompridada ainda pelos rodeios do contador. Sei lá...

18 de agosto de 2007

QUE É QUE EU SEI?

O que é que eu sei do amor, amiga minha, Senão essa dor interminável? Senão esse punhal atravessado no peito… Sangue aos borbotões… O que é que eu sei do amor, amiga imensa, Senão esse perfume esquecido Com cheiro de antigas cartas e fotografias amareladas? Senão esse casaco poído onde nos aquecemos E essa ânsia desesperada de estarmos juntos? Que é que eu sei do amor, musa dos meus rabiscos, Senão essa vontade imensa dos teus abraços? Essa adolescência que teima em morar comigo, O desespero da chuva E a saudade de um beijo molhado! Que é que eu sei do amor, minha cara, Que é que eu sei, Se continuo aprendiz? (do livro "os sapatos apaixonados")