6 de setembro de 2006

BREXITA É A (...) DA MÃE!

(Este pequeno conto foi premiado no I Concurso de Contos-crônicas IMPRELL/CAAP, João Pessoa-PB) "O diacho é que ela era uma doida fogosa. Era mesmo. Diziam que havia ficado daquele jeito porque o queijo tinha subido pra cabeça. Sabe como é que é… num botou o bicho pra funcionar... Outro dia uma amiga profissional – gente entendida – me deu até uma explicação científica pro troço: o tal do queijo existe mesmo, e fica localizado numa região assim na parte de trás da cabeça. Eu, hein! A bem da verdade, quando o povo diz que é queijo… num sei não, mas é difícil de errar. Certo também que a língua do povo, principalmente numa cidadezinha como aquela, com um quase nada de coisas pra fazer a mais do que ver o tempo passar era um negócio terrível. Pois então! Dona Lourdinha do Pade, que tomava conta das chaves da igreja, uma beata carola, barata-de-sacristia, que muito mal levantava a cabeça quando andava pela rua, nunca nem se chegou assim mais perto de outro homem que não tenha sido o finado Tonho de Maroca, e diziam o diabo dela… imaginem só uma doida como Maria Brexita, sem pai nem mãe, sem peia nem cabresto. Era uma figura teatral. Andava rua acima rua abaixo, andar firme, mas cheio de mungangas, um caqueado sem sentido - ao menos pra nós - como se procurasse sempre alguma coisa no meio do amontoado de trapos esquisitos que cobriam seus couros velhos engelhados e de raros banhos. Cá pra nós, já viu coisa mais esquisita que roupa de doido? Cada um tem um estilo mais sofisticado, espalhafatoso, mas algo parece lhes ser comum: mesmo no tempo mais quente têm uma quedinha, cada qual ao seu estilo, pra botar um monte de trapos por cima do esqueleto e, de quebra - o que não pode faltar, é claro - alguns adereços que, no fundo, acho eu, devem ter algo a ver com a mania que os acompanha. Algum detalhe no percurso que os transformou em seres especiais, essas coisas que a gente não entende muito e joga logo na vala comum do “Freud explica”, como se o velho e sisudo pai da psicanálise tivesse inventado nada mais que um moderno oráculo, fonte onde devíamos buscar todas as respostas para o desconhecido universo da psique. Andava com um vestido longo de chita que batia lá pelo calcanhar, cheio de florzinhas azuladas, já desbotado pela peleja de tantos anos, de tanto sol e tanta chuva que, se não me trai a memória, era o único, ao menos durante o tempo inteiro em que a conheci. Usava-o com uma blusa verde por cima, um casaco velho de malha parecido mais com um bombril, cheio de fibras e, como se fosse pouco ainda, uma inseparável manta - que no passado havia sido uma colcha de chenil Madrigal e que umas vezes servia de cachecol, noutras, era o cobertor que defendia os velhos e quase carcomidos ossos da friagem noturna. Não tinha parelha a velha Brexita. Com ela não tinha esse negócio de ser lua cheia não. Qualquer dia era dia. Um moleque açoitava por trás dum poste, “Brexita!”, “Brexitaaaaa!”, ao que ela devolvia estridentemente, “Brexita é a (...) da mãe”. Mais à frente sentava no batente da casa paroquial, outro espocava da esquina, e este era o mais provocador de todos, “Maria Brexita, ói o preá na boca”, insulto suficiente para que a dita cuja arribasse a saia, deixando à mostra toda sua intimidade, se é que louco algum já teve intimidade na vida. A escolha do preá como símbolo não era gratuita, pois a referência ao pequeno roedor silvestre, um verdadeiro gabiru sem rabo, era uma comparação da região pubiana com o dorso peludo e de cor escura no animalzinho tipicamente nordestino. Era uma zorra total naquele momento, um cu-de-boi desgraçado… pois a pobre louca, até ali compenetrada, mexendo com seus teréns na velha mochila, brandia o seu tradicional cacete de catingueira de mais ou menos uns oitenta centímetros e sei lá quantos anos de companhia, e aí não ficava ninguém por perto, temendo a concretização da ameaça. O certo é que não se tem notícia se algum dia ela bateu em alguém ou mesmo atirou uma daquelas tantos milhares de pedras que apanhou à primeira vista e as ergueu trêmula, bradando, ameaçando atira-las em seus desafetos. Conseguia mesmo era satisfazer a curiosidade da meninada que ansiava pra ver o tal “preá...” que só Brexita mostrava. E a molecada se deleitava. Sou capaz de jurar que até mesmo ela se divertia um pouco com aquele espalhafato provocado pelas suas estripulias. Talvez, no íntimo - e esse pode ser o grande segredo de muito louco por aí afora - debochasse da cara de todo mundo, na sua mesmice, no seu todo-dia-fazer-a-mesma-coisa, enquanto ela, Ah! isso ninguém iria saber, pois no seu mundo ninguém penetrava, ou quase ninguém… ninguém… Não sei por que cargas d’água, sempre há de ter algum destrambelhado que, na falta do que fazer, aparece pra estragar tudo. E, nestas horas, fica sempre no ar a grande dúvida sobre quem é mesmo louco. Naquele fatídico dia, sem imaginar o desfecho infeliz de sua conturbada trajetória, Brexita passou como sempre na casa de Dona Zefinha que encheu de café sua velha caneca de ágata, outrora laqueada de verde, já descascada pelos anos de sopapos, pegou o pão francês adormecido na bodega de Zé Pequeno e mandou-se pra rua. Aquele era o ritual de anos e anos. Sempre o mesmo caminho, sempre às mesmas horas, os mesmos gestos, as mesmas falas, os mesmos moleques. Claro, de três ou quatro gerações diferentes, mas sempre os mesmos. Aquele parecia um dia como todos os outros, não fosse a chuva pesada que ameaçava despencar lá de cima com toda força. Ora, quem diria que justo naquele dia a cidade teria uma das maiores quedas d’água de sua história? Depois de tantos anos de seca, novamente a promessa de fartura. Nos últimos anos, quando chovia com abundância acontecia a chamada seca verde, que deixa o mato todo verdinho, mas caindo sem regularidade, mata a lavoura inteira deixando todo mundo na mão. No entanto, aquele inverno prometia. Começando logo com um temporal brabo, quem sabe agora... Não andou duzentos metros e teve que se proteger do toró que veio troando e veloz como uma bala pra desgosto de Brexita e alegria e esperança de milhares de corações daquele velho cariri de guerra que, apesar de toda aquela tal modernidade, ainda penava com a agricultura de subsistência à mercê dos fenômenos da natureza. Ali os homens e mulheres não sabiam ainda o que era progresso, a não ser nos discursos dos candidatos nas eleições ou diariamente depois da boquinha da noite quando desligavam do seu mundo real e se ligavam na televisão. Aí sim, o mundo se transformava. Pelo menos nas suas esfrangalhadas fantasias. Êita, mundinho bonito aquele da televisão... Pois bem, quem iria dar abrigo a uma louca no meio dum temporal daqueles? Somente sei que ela foi esgueirando-se pelas paredes até o velho prédio do vapor, onde funcionou a casa de força, que em tempos idos fornecia luz elétrica para a cidade, a esta altura abandonado e prestes a cair. Suspirou aliviada quando se sentou embaixo de uns papelões velhos que alguém providencialmente havia estirado por cima de umas cinco ou seis estacas, provavelmente roubadas da cerca do açude, e outros quatro paus mais finos fincados em buracos feitos na velha parede de tijolos cheios e carcomidos, uns tijolões como não se fazem hoje em dia, de uns quarenta por vinte cada um, sustentados no massame forte, agora caliça ressequida pelo passar dos anos. Nem sei como ainda mantinham-se de pé, resistindo à ação do tempo e do abandono há quase um século. Ali mesmo ela acocorou-se encostada na parede do velho prédio, aproveitando para comer um pedaço de pão ensopado no café há horas frio. Dente já não possuía mais nenhum dos que a natureza lhe deu. Sorte que um dia o velho Zé da Ilha Grande, prático dentista, de coração imenso, fez-lhe um favor extraindo-lhe os últimos três caninos que restavam. Agasalhada em seus trapos, embalada pelo barulho ritmado da chuva sobre o papelão, quase cochilava quando surgiu não se imagina de onde, aquela figura estranha, olhos esbugalhados e um sorriso estranho, meio cínico, meio raivoso, meio-não-sei-o-quê, daqueles de canto de boca, tomando conta de toda a cena. Ela até que tentou ensaiar um grito, mas quem ouviria um grito no meio daquele toró de fim de Janeiro? Ainda mais o grito de uma doida. Só sendo mesmo... Encontraram-na por acaso, no dia seguinte, jogada em meio aos teréns largados no chão enlameado, um pedaço de pão dormido, feito uma pasta disforme ainda junto da velha caneca de ágata – companheiros inseparáveis. Entre tantos suspeitos, há um que ainda hoje vive preso por lá. Estatura mediana, branco, cicatriz no lado esquerdo do rosto, entre o olho e a orelha, que também faltava um pedaço no lóbulo, lembrança de uma briga no cabaré de Sinforosa. Quiseram – até tentaram – linchá-lo dentro da cadeia, mesmo sem sabê-lo culpado. Qual nada. Precisavam, como disse um passante, de um “bode respiratório” para exorcizarem seus dramas cotidianos, quiçá a maldita estupidez da vida. No laudo comprovaram estupro seguido de morte por traumatismo craniano, provocado por objeto contundente, provavelmente um dos tijolões daqueles lá do velho prédio. Dela não se sabe muita coisa. Origem, família, idade… Foi enterrada como indigente, levada ao cemitério no caixão de caridade, empréstimo da prefeitura. Disseram que tinha uns parentes lá pros lados da Serra do Borges e que de há muito já dobrara o Cabo da Boa Esperança. A expressão do seu rosto era indescritível. Só mesmo vendo! Mas, quem iria perder seu tempo pra ir ver uma louca defunta? Estivesse viva, ao menos xingaria daria-lhe um pão dormido… mudaria de calçada. O que não daria mesmo era pra ignorá-la".

Um comentário:

Aninha Santos disse...

Muito triste esse texto... é uma história real? Lembro de já ter lido mas não me lembro de ter ficado tão triste como agora...
Um xero pra ti.