15 de setembro de 2016

ZÉ LAURENTINO: SOBRE POETAS E POESIA

DOIS TEXTOS ANTIGOS AQUI PUBLICADOS:

1. O POETA E A PALAVRA

O poeta e a palavra são farinha do mesmo saco.
A palavra está para o poeta,
assim como a chuva está para o arco-íris.


A palavra na cabeça do poeta,
A palavra na caneta do poeta,
A palavra tinta no pincel do poeta,
A palavra vida no coração do poeta,
A palavra punhal, palavra-dor,
palavra comida, palavra vinho no bucho do poeta.


A palavra nomeia.
O poeta passeia com a palavra.
O poeta namora a palavra.
O poeta come a palavra,
transa com ela, goza e... morre.


Morre o poeta com a palavra.
O poeta da palavra não morre.
A palavra do poeta não morre.
O poeta não morre,
... vira pura palavra!

2. ZÉ LAURENTINO

Poeta é aquele que tira de onde não tem e põe onde não cabe”

Pinto do Monteiro.


José Laurentino da Silva é Paraninfo Geral das turmas concluintes do período letivo 2009.2.

Uma lenda na Universidade, estampou em manchete um dos jornais da cidade. Não inventou nem aumentou, pois estamos de fato diante de uma verdadeira lenda viva da poesia.

Recebida a tarefa de homenageá-lo, em nome da UEPB, busquei inspiração nos poetas. Nada mais justo!

Antes de iniciar esta pequena reflexão saí por aí perguntando e depois fiz a mesma pergunta a mim mesmo:

De que matéria são feitos os poetas?

Pensei em uma resposta rápida: Da mesma matéria que são feitos os pedreiros. Os poetas são gente de carne, osso e sentimento.

Os poetas são seres de luz, disse alguém!

Outro respondeu que os poetas são seres de outro mundo. Talvez o mundo da lua!

Pra me ajudar a entender o problema que levantei fui pedir ajuda ao poeta João Paraibano e ele me disse:

 

"Faço da minha esperança

Arma pra sobreviver,

Até desengano eu planto

Pensando que vai nascer

E rego com as próprias lágrimas

Pra ilusão não morrer.

 

Há três coisas nesta vida

Que Deus me deu e eu aceito:

A Terra para os meus pés,

A viola junto ao peito

E um castelo de sonhos

Pra ruir depois de feito."

 

Pensei que os poetas são como os dias, são como a essência da vida... e então Cecília Meireles me confidenciou que os dias são feitos de matéria fátua.

De que são feitos os dias? 
- De pequenos desejos, 
vagarosas saudades, 
silenciosas lembranças. 

Entre mágoas sombrias, 
momentâneos lampejos: 
vagas felicidades, 
inatuais esperanças. 

De loucuras, de crimes, 
de pecados, de glórias 
- do medo que encadeia 
todas essas mudanças. 

Dentro deles vivemos, 
dentro deles choramos, 
em duros desenlaces 
e em sinistras alianças...

Os poetas são gente comum, que comem feijão com arroz, tomam uma cachaça, mas não cospem no pé do balcão. Os poetas são catalisadores de sentimentos. Por isso carregam consigo todas as dores do mundo, todo o sentimento do mundo.

Disse Carlos Drummond de Andrade:

Tenho apenas duas mãos 
e o sentimento do mundo...”

Poetas e tontos são feitos com palavras”, disse Manoel de Barros, pois “Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando”.

E quando os poetas falam com os sonhos, conversam com os desejos, buscam o inimaginável, o imponderável, o inusitado a palavra nova, a cara nova da palavra, o cheiro novo da palavra... é de vida que estão falando.

A poetisa portuguesa Florbela Espanca disse como num desabafo:

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor.”

A mais famosa das tentativas de entender os poetas foi uma empreitada de Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.”

A Universidade Estadual da Paraíba, que prima e persegue a objetividade da ciência, hoje rende-se ao lirismo e à crueza do cotidiano, ao matuto de Puxinanã que virou homem do mundo.

O nome Zé Laurentino tem 208 mil entradas no Google. No site Usina de Letras, Maria do Socorro Cardoso Xavier afirma:

De inteligência privilegiada o poeta Zé Laurentino coloca-a serviço do seu povo, fazendo rir e tirando lições do acontecer cotidiano caipira. Zé Laurentino é a encarnação do interior nordestino, este sentir rústico, forte, telúrico e pândego ao mesmo tempo”.

Eu, a Cama e Nobelina, Matuto no Futebol, O Mal se Paga com o Bem, Carona de Candidato, Esmola pra São José e tantos outros.

O homem que tem poemas e glosas gravados por dezenas de artistas brasileiros, muito de grande destaque no meio artístico e cultural.

Assim ele se definiu em discurso de posse na Academia de Letras:

Autoridades presentes,

Minhas senhoras e senhores,

Sou poeta sertanejo

Meus maiores professores

A minha maior escola

Foi o toque da viola

E os versos dos cantadores.

 

Meu verso cantou amores, 

Saudade, mágoa, paixão

Já cantou as alegrias

De uma noite de São João

Cantou fartura na mesa,

Também cantou a tristeza

De uma mesa sem pão.

 

Os meus versos se juntaram

Ao violão do boêmio

Foram comigo à choupana

Teatro, colégio e grêmio

Cantei no sertão, na praia,

Ganhei beijos, sofri vaia,

Fui expulso, ganhei prêmio.

 

Estes versos caipiras

De andar estão cansados

Foram bater em Brasília

Disseram aos deputados

Bem como aos senadores

Que nossos trabalhadores

São todos injustiçados.

 

O homem que é um verdadeiro clássico da poesia popular contemporânea, um dos maiores poetas vivos deste país, por incrível que possa parecer, não passa de um Zé, mas não é um Zé qualquer. É do tamanho de um Zé Praxedes. Da estatura de um Zé da Luz, em quem se inspirou e a quem tanto cultua. É Zé Laurentino, o menino do sítio Antas.

Este homem de palavra

Este homem de talento

Produziu da sua lavra

De poemas, mais de um cento

É alegre e sorridente

Chora quando está contente

E é feliz como um menino.

Quem o conhece, o aclama

Que viva sempre essa chama!

Chamada Zé Laurentino.

Parabéns, poetinha! Boa Noite a todos!

Muito obrigado!



Um comentário:

Geraldo Bernardo disse...

A ESCULTURA POÉTICA
Geraldo Bernardo


Sou poeta de bancada
Faço versos e não canso.
As ideias brotam em rimas
Por algumas vezes, alcanço,
Modelo algumas estrofes .
É uma nova obra que lanço.

Meu verso às vezes é manso
Noutras faz fala forte
Celebro a liberdade,
A vida com labuta e sorte.
Não temo duras intempéries
Nem tenho medo da morte.

Há quem ache que sou sem norte
Ou que não sou centrado.
Posso mudar muitas vezes
Em algumas, ser estourado,
Mas minha alma revolta-se
É com quem vive estagnado.

Quem hoje, ainda é limitado
Neste mundo tão diverso,
Não tem discernimento.
Com pessoa assim não tergiverso,
Essa gente que cai em armadilha
À esse povo digo o inverso.

Não sabe como é o verso
Toda essa gente idiota
Pega qualquer besteira
Pensando ser uma porta
Para denegrir pessoas
Deixa ao lado o que importa.

Há sempre mais de uma porta
Pra quem vive sem medo.
Quem enfrenta com galhardia
O mundo e todos os segredos
Alguém assim não é esquecido
E jamais vive em degredo

A vida não é brinquedo
Mas, o mundo é montanha russa.
Há dias de felicidade
Noutros a fé fica murcha.
E quando no alto paramos
A gravidade nos puxa.

Minha vida tem via avulsa.
Não adianta pôr arreios nos dias,
Que nalguma vereda
O destino e suas fantasias
Tomam-me das mãos as rédeas
e levam-me pra onde há poesia.

Poeta enfrenta a hipocrisia
Com a lança da verdade,
Às vezes fere fundo
Sem dó nem caridade.
Combatendo com versos
A cruenta falsidade.

Ouço a voz da felicidade
Vez por outra no meu ouvido
Cheia de libidinagem
Desta paixão eu duvido
Embora caia de quatro
Até ser gato e sapato
E perder todos os sentidos.

Tenho o destino cumprido,
Embora sem saber o rumo.
Vou obedecendo ao acaso
Os dias vão mostrando o prumo
Nem sempre tem sido ruim
Nem tudo depende de mim,
Mas, acerto ou erro eu assumo.

O melhor da laranja é o sumo
No ser humano é a verdade
Por mais escassa que esteja
É melhor a sinceridade
Nem que doa por um momento,
Ainda é o maior sentimento
Pra conservar amizade.

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