18 de abril de 2007

O RITMO DA CHUVA

No final dos anos 70, quando me entendi de gente, ouvia e repetia ao violão coisas como essas: “Olho para a chuva que não quer cessar / Nela vejo meu amor...”, cantava Demétrius, enquanto Jorge (ainda apenas) Ben avisava que iria fazer uma prece pra Deus Nosso Senhor “... pra chuva parar / de molhar o meu divino amor”. Depois vem Hildon dizendo que qualquer lugar serviria: “Na rua, na chuva, na fazenda / Ou numa casinha de sapê”, pra ter o seu sonho de amor realizado. Já nos 80, no samba, Beth Carvalho gingava “A chuva cai lá fora / Você vai se molhar / Já lhe pedi não vá embora / Espere o tempo melhorar / Até a própria natureza / Está pedindo pra você ficar”. A canção é de autoria de Argemiro e Casquinha, da velha-guarda da Portela. Faria aqui uma lista quase sem fim de letras de canções belíssimas que recorrem ao tema chuva, relacionada quase sempre ao amor, nostalgia, saudade e, no caso da música regional nordestina, inevitavelmente, à seca. Vejam-se, por exemplo, o vasto repertório do Rei Luiz Gonzaga, de Dominguinhos e dos novos compositores como Maciel Melo, Petrúcio Amorim, Flávio Leandro, somente pra citar alguns de que mais gosto. Lobão, hoje bem mais conhecido pela acidez de suas críticas ao establishment musical, já pariu versos bucólicos e de um lirismo incomum em sua obra, de fazer inveja aos românticos dos anos 50. Quando puder, escute a bela canção. Veja e tire suas conclusões: “A chuva cai chorando/ E o meu amor vai e vem/ No céu, no chão/ A rede vai me vai levando/ A noite além da noite/ Me faz lembrar o que eu não vivi/ Toda essa história esse segredo/ Memórias num vendaval/ Pela estrada enquanto eu passo/ O cinema é só ilusão/ Vou chorando pelo campo/ No meio do temporal/ A chuva dá saudades/ De um lugar que eu nunca fui/ E o vento vai soprando/ Um choro tão distante/ Pela estrada enquanto eu passo/ O cinema é só ilusão/ Vou chorando pelo campo/ No meio do temporal.” Na verdade, puxei o assunto pra lembrar do quanto já ‘viajei’ em sonhos chuvosos, do quanto a imagem poética da chuva já mexeu com meus sentimentos até mesmo gerando alguns esboços de poemas que um dia, quiçá, virão a lume. Ouvi no rádio o que já havia confirmado em minha breve caminhada matinal e desde ontem já observava: o tempo está nublado na Serra da Borborema e traz bons presságios. Tão bons quanto um nambu cantando na capoeira ou um casal de rolinhas entoando seu canto melancólico do alto de um umbuzeiro já quase desfolhado lá pelas brenhas do eu cariri. A chuva traz saudades, revolve reminiscências e papéis amarelados, sonhos de barquinhos de papel em uma corredeira de meio-fio, uma biqueira de quintal ou um meio de rua em Juazeirinho, um carnaval adolescente, um açude sangrando, a babugem crescendo nas capoeiras, o juremal verdejando as serras antes cinzentas e o frio chegando. Saudades de uma Campina Grande menos quente, de um planeta terra mais amigável pra se viver, de um sereno curtido ao som de uma serenata e uns goles de “Mazile” ou “Casa Grande” com coca-cola, de uma madrugada esticada prum inevitável abraço no sol... Como bom defensor da tese que o melhor tempo é hoje, não devo lamentar o presente. Mas, ainda assim, não posso deixar de confessar que, pelas minhas pesquisas empíricas, a chuva e a noite, mais que o sol e o dia, sempre inspiraram mais os poetas e compositores. E por que não dizer, também, os amantes? Eis um poeminha sem data ou título, escrito há uns 15 anos. Torrencialmente chove. Pela rua, a aura do desejo esvai numa exasperação dorida. Cântico dolente fere o ar. É tarde, tarde, tarde...

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi Junior,

Valeu a provocação, fomos premiados com um belo texto, poético como sempre!!!
Abração

Angela

Rangel Junior disse...

Fustigado, a reação foi imediata. Obrigado pelo 'acordar'.