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26 de julho de 2026

O livro dos fracassos (e a página que deu certo)

 



Desde que me entendo por gente, até o momento em que escrevo, me considero um sonhador incorrigível. Não sei viver de outro jeito. Não imagino a minha vida sem estar, o tempo todo, amarrado a algum sonho grande, a algum projeto de vida meio delirante, desses que a gente arquiteta de olhos abertos, no meio da tarde.

Foi sonhando que me fiz gente. Sonhando me tornei artista. Sonhando me tornei professor, poeta e comunista. Sonhando me comprometi com a educação e virei professor há quarenta e um anos, agora aposentado. Nunca mais quis outra coisa. Mas, para além do giz e do quadro, sempre alimentei muitos planos. Planos mirabolantes, daqueles que a gente jura que vão dar certo.

E muitos deles fracassaram. Muitos. Se um dia eu sentar para contar tudo o que sonhei e arquitetei ao longo da vida, talvez o título já venha pronto: “O livro dos fracassos. Porque quase nada aconteceu do jeito que planejei. Tudo, absolutamente tudo, se realizou diferente do que eu imaginava. E, olhando de longe, foi por esses caminhos tortos que cheguei até aqui. Como quem planta abacaxi e colhe manga, e descobre, no fim, que plantar era a melhor parte.

Em cada um desses sonhos, sempre coube gente. Amigos, amigas, família, meus filhos, eu não saberia sonhar sozinho. E aí, sem alarde, chegou Camilla. Há 22 anos e meio. Há 22 anos, o seu primeiro aniversário junto comigo, foi dividido entre o apartamento e um hospital. Ali já tínhamos um pacto.

Ela chegou de mansinho, como o orvalho chega de madrugada: a gente não vê a hora exata, só repara depois, quando o chão já amanheceu molhado. Foi assim que ela foi entrando, na textura  da minha pele, no miúdo dos dias, até se tornar parte indispensável do meu viver bem. Do meu equilíbrio. Da organização da minha vida e, principalmente, dos meus sonhos.

Porque ela também é dessas pessoas que alimentam sonhos. Só que muitos dos sonhos dela ela guardou num canto, num plano segundo, num terceiro, para poder acompanhar de perto, proteger e cuidar da educação dos nossos filhos com uma dedicação que a minha nem sempre alcançou. Além de sua inteligência e perspicácia, também por isso que tenho por essa mulher uma admiração do tamanho do céu do Cariri.

Hoje eu digo sem medo de errar: fiz dos sonhos dela também os meus sonhos. Dos desejos dela, os meus desejos. E a coisa que eu mais quero neste mundo é vê-la cada dia mais feliz, realizando os seus propósitos, os seus planos de vida. E disso eu tenho uma certeza meridiana, dessas que nem precisa esperar o meio-dia para ficar clara. Ela vai realizar.

Que ela siga sonhando. E que, aconteça o que acontecer, eu esteja ao seu lado. Aconteça o que acontecer, eu estarei ao seu lado. Apenas porque a amo. Aliás, vendo agora pelo meu lado egoísta, ao lado dela eu também me sinto mais eu.