BLOG DO RANGEL
Palavras e imagens. Impressões e olhares sobre o mundo e as relações. Um pouco de cada coisa: educação, universidade, cultura, arte, política, gente...até poesia e outras formas de escrita.
7 de julho de 2026
A ARGENTINA ENSINA
30 de junho de 2026
As Paixões e os Espelhos
Os mais antigos viviam repetindo uma frase que a vida insiste em confirmar: paixão não é boa conselheira.
Na juventude, a gente costuma rir dessa sabedoria. Afinal, quem está apaixonado acredita que descobriu uma exceção às regras do mundo. Mas o tempo, esse professor que não aceita recursos, acaba dando sua aula.
A paixão amorosa é como chuva de verão. Chega com trovões, relâmpagos e promessas de eternidade. Faz o coração correr mais depressa e colore até as segundas-feiras. Mas ela tem apenas dois destinos.
O primeiro é o desencanto. Um dia, o príncipe ronca. A princesa também acorda de mau humor. As asas imaginárias caem no chão da cozinha e, sem elas, sobra apenas a vida como ela é.
O segundo destino é bem mais bonito. A paixão também morre, mas morre como a lagarta. Deixa de existir para que outra coisa nasça. Transforma-se em amor: menos fogos de artifício, mais lamparina. Ilumina menos o céu, mas clareia a casa por muito mais tempo.
Com a paixão política, porém, a história costuma ser diferente.
Ela raramente se transforma. Vive de mitos, de salvadores, de discursos perfeitos e de fotografias cuidadosamente enquadradas. Apaixonados por líderes enxergam gigantes onde existem apenas pessoas. E pessoas, por definição, carregam virtudes, defeitos, vaidades, contradições e tropeços.
Mais cedo ou mais tarde, a cortina se abre. O herói desce do pedestal. Não porque tenha mudado completamente, mas porque ninguém consegue morar para sempre na altura em que seus admiradores o colocaram.
Talvez o maior erro não seja dos líderes. Talvez seja dos espelhos que fabricamos para eles. Polimos tanto a imagem que esquecemos de deixar espaço para a humanidade.
No fim das contas, amar pessoas é saudável. Admirá-las também. O perigo começa quando a admiração troca os pés pelo altar.
E talvez seja por isso que os velhos tinham razão: quem transforma gente em mito acaba colecionando decepções; quem aceita que toda gente é apenas gente aprende a gostar e até admirar, porém sem perder jamais a capacidade de pensar criticamente e a liberdade de ser, sem os grilhões da ignorância e fé cega em pessoas.
14 de abril de 2026
RESPONDENDO SOBRE CANDIDATURA MINHA
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| Foto: Guilherme LR |
Minha avaliação sobre tema "candidatura a cargo eletivo" é bem simples e um pouco egoísta, confesso.
Sou militante político do mesmo partido, o PCdoB, há 40 anos.
Tenho identificação, propósito, compromisso e afinidade até mesmo afetiva.
Uma vantagem: preciso do partido para me sentir bem. Isso tem a ver com pertencimento. Algo que sinto também em relação à UEPB. Não preciso do partido para mais nada além disso. Gosto de servir e não de "me servir" dessa condição.
Não é altruísmo, não é que deseje ser exemplo de nada para ninguém. Porém, no fundo é uma sensação de que este é o meu lugar.
Por outro lado, os 64 de idade, que completarei este ano, me dizem para desacelerar, cuidar mais de alguns sonhos antigos, olhar mais para dentro, para a família, ajudar amigos, transmitir alguma experiência, aprender coisas que passei anos querendo aprender, mas não fazendo efetivamente.
Na condição de psicólogo há 38 anos, e professor há 41 anos, com relações de trabalho registradas há 46 e trabalhador, de fato, há 55 anos... como posso falar sobre qualidade de vida, envelhecimento saudável e bem scedido, se não cuidar eu mesmo de fazer isso comigo?
Enfim, apoio e aposto nos/nas mais jovens, que revelem algum talento e compromisso com certos padrões elementares de ética social e política, e com "sangue nos olhos", cheios/cheias de vontade de fazer coisas novas.
A música me convoca, a literatura me provoca, a vida com arte me convida e aproveitar o tempo de vida que me restar, para fazer coisas que me apaixonem e me renovem, que me movam e me seduzam, que me abram caminhos a novas perspectivas de bem viver.
É isso!
25 de outubro de 2025
O Espelho d'Alma no Agreste: A Crônica Poética do 'Sempre Sonhar' de Jorge Ribbas
Por Rangel Junior
A Convocação da Arte e a Orquestra da Intimidade
O calendário sideral alinhou-se em 24 de outubro de 2025, e o som da esperança ressurgiu em forma de álbum: "Sempre Sonhar" de Jorge Ribbas. O lançamento, celebrado com um concerto noturno para quarenta privilegiadas pessoas, transcendeu o evento musical; foi a abertura de um portal, um convite à escuta atenta que só a verdadeira arte pode proporcionar. A alma do Agreste, sábia e melódica, vestiu-se de gala. E o público presente realizou uma escuta atenta, afetiva, amorosa, educada. Tudo que se deve fazer ao ouvir uma música pela primeira vez.
Ribbas, o mestre que faz de seu violão a extensão do pensamento, não estava sozinho. Sua música floresceu sustentada por uma constelação de talentos: João Valter Filho (Teclados) pintando as paisagens harmônicas, Matheus Duarte (Guitarra) traçando trilhas elétricas de rara beleza, Cleisson Melo (Baixo) firmando a âncora rítmica com elegância, e Cláudio Montevérdi (Bateria) tecendo o tempo com precisão de ourives. Com Ribbas, no centro, violão e guitarra, a arte era tecida ao vivo.
No palco, não vimos apenas o professor, mas o alquimista. Aquele que, com a mesma destreza, maneja a poesia do quase rock introspectivo em temas como "Mutantes" e a lírica camerística de Cena Louca, provando que a complexidade é apenas a face oculta da beleza.
O Álbum: O Rio Sereno das Composições
"Sempre Sonhar" não é apenas a ideia de um disco; é um rio que corre por dentro. A faixa-título é a sua nascente, um sopro que se recusa ao cinismo, um farol aceso na neblina dos tempos. Mas a profundidade da obra reside nas suas margens contrastantes:
O sussurro ancestral de "A Lua": Em um aceno reverente à grande compositora Socorro Lira, Ribbas desvela a canção como uma oração. O arranjo é uma tapeçaria minimalista onde o violão, como uma harpa de cristal, dialoga com o teclado que emula um cello sutil, chorando baixinho na vastidão da noite. É o instante de MPB mais puro, onde a voz de Ribbas se torna a brisa que embala sonhos, e a poesia é a única virtuosidade necessária.
O afeto medieval de "Távolas": Esta parceria com Kiko carrega um perfume pop-romântico, mas com raízes fundas. O título, que evoca as mesas de cavaleiros, sugere uma melodia nobre, um encontro de afetos. A canção é um diálogo entre o Agreste e as estradas do Clube da Esquina, um convite a sentar-se à mesa da canção e compartilhar a energia da Paraíba com o mundo, provando que o regional pode ser, e é, universal.
"A Boniteza do Mundo": O manifesto em canção: Aqui, o mestre Ribbas exerce sua sabedoria. A melodia, de uma simplicidade quase sagrada, é sustentada por uma harmonia que bebe na fonte dos cantadores e menestréis nordestinos, transformando o saber popular em arte erudita. É a lágrima de orvalho que revela a vastidão da paisagem. O mundo clama por boniteza, e Ribbas responde com um canto suave, mas ardente, um grito poético de esperança por um universo de irmãos.
O Toque de Midias e a Mágica do Encontro
O que define a experiência do "Sempre Sonhar" ao vivo é a mão do arranjador que não permite o repouso. O som em palco era uma criatura viva, pulsando e se transformando. A guitarra de Ribbas, ora tempestade, ora murmúrio, revelou-se um instrumento de confissão. A plateia foi agraciada com a liberdade da criação: a releitura visceral de cada faixa.
A celebração atingiu um dos seus ápices com a presença da cantora Soraya Laíres. O dueto foi um rio a encontrar o mar, um intercâmbio de vozes que iluminou a universalidade da música de Ribbas, unindo texturas e sotaques em um momento de pura comunhão artística.
Conclusão: A Luz no Horizonte
Jorge Ribbas não segue as correntes; ele traça seu próprio curso. Com "Sempre Sonhar", ele nos oferece um bálsamo, um convite à reflexão que é embalado por uma sonoridade rica e sofisticada. Sua música é o esforço da luz contra a sombra.
Deixamos o recinto com a certeza de ter testemunhado mais do que um concerto: uma declaração de amor à arte. E enquanto o violão de Jorge Ribbas seguir traçando o horizonte, a semente do "sempre sonhar" continuará a germinar.26 de setembro de 2025
O veneno de Naja e sua filha Najinha
Em uma floresta exuberante, chamada Harmonia, onde rios cristalinos serpenteavam entre árvores centenárias, os animais conviviam em uma paz construída com muito esforço. O leão, o macaco, o sabiá e o jabuti, cada qual com suas peculiaridades, tinham aprendido a valorizar a diferença e a resolver seus conflitos em assembleias à sombra da Grande Figueira. Os mais antigos, como o jabuti Cascudo, ainda se lembravam das histórias aterrorizantes da Serpente Naja, cuja linhagem ancestral havia espalhado medo e destruição por toda a floresta. Naja era uma criatura de pele cintilante, hipnotizante, mas seu veneno era letal e seu único objetivo era envenenar opositores e conquistar o poder absoluto.
Mas a harmonia começou a rachar. Discussões sobre a melhor forma de organizar a floresta se tornaram mais acaloradas. Alguns animais, cansados da complexidade da convivência, clamavam por uma mudança radical. Eles acreditavam que certos animais queriam direitos demais, que a liberdade de discordar era um peso, e que uma nova ordem, talvez mais simples, seria a solução. Os mais velhos, como o Cascudo, tentaram alertar: "A serpente Naja e sua família de cobras nunca tiveram outro objetivo senão a aniquilação daqueles que se opõem ao seu poder!" Mas as palavras se perdiam no burburinho dos descontentes.
Foi então que um fenômeno climático alarmou a todos: o aquecimento global. A floresta, antes temperada, começou a sentir um calor sufocante. Em meio à incerteza e ao medo, algumas serpentes, menos venenosas, tentavam tranquilizar os outros animais. "Não há o que temer", dizia a serpente-azul, "Se nossos ovos chocarem com o calor, o novo tempo será só de renovação e progresso. E só destruiremos os nossos inimigos, os bichos vermelhos!" E como os bichos vermelhos não eram tantos, a enorme maioria não se preocupou. Elas sorrateiramente não esclareciam que, para a família das serpentes, inimigo é todo aquele que não concorda com suas vontades e não compartilha de seu direito ao poder.
Nesse clima de caos e divisão, o ovo da lendária Naja, que todos acreditavam estar abandonado há gerações, talvez tivesse até gorado, começou a rachar em um ninho escondido. O ovo havia sobrevivido às intempéries, e o calor atípico da floresta o chocou. Do ninho, emergiu a jovem Najinha, um ser de beleza ainda mais estonteante que a mãe. Desta vez com um poder de mimetismo nunca visto antes. Aparecia à luz do dia com círculos e losangos combinados em verde-amarelo, azul e branco e às vezes, na sombra, se viam suas listras brancas e vermelhas e estrelinhas brancas sob um azul intenso, mas com o mesmo veneno corrosivo em suas veias.
Najinha cresceu rapidamente, alimentando-se da desconfiança e do rancor que cresciam na floresta. Começou a alimentar o ódio e a descrença entre os outros animais e se aliou às serpentes menos venenosas, prometendo-lhes um novo mundo, um mundo em que as serpentes dominariam. Juntas, elas disseminaram a ideia de que a diversidade era uma fraqueza e que a união sob uma única e forte liderança, a de Najinha, era o único caminho para a prosperidade. E começaram a apelidar a Najinha de mito.
O velho Cascudo, vendo a floresta à beira do abismo, organizou uma última assembleia. "Há muito tempo, nossos ancestrais derrotaram a Naja e esmagaram sua cabeça para acabar com seu domínio de terror. Mas eles cometeram um erro: deixaram um ovo", disse ele. "E agora, com o aquecimento de nossa floresta, a semente do mal cresceu e agora ameaça destruir tudo o que construímos!" A raposa Astuta, por sua vez, alertou: "Muitas vezes, aquilo que nos parece belo ou inofensivo pode ser a semente do nosso próprio fim."
A floresta se dividiu. Aqueles que lembraram das histórias de terror lutaram para proteger a floresta. O leão e o sabiá uniram-se ao Cascudo, e mesmo os macacos arrependidos se juntaram à luta. Mas muitos sucumbiram ao encanto de Najinha e seu discurso de ordem e poder. A guerra foi inevitável e a floresta Harmoniosa, antes um símbolo de união na diversidade e mesmo divergência, foi transformada em um campo sangrento de batalha.
No final, a floresta foi poupada da total destruição, mas a guerra deixou cicatrizes profundas. A união foi razoavelmente restaurada, mesmo que ainda um pouco frágil, mas não sem antes a jovem serpente ter sido esmagada e o ovo, que todos pensavam ter sido o último, destruído para que a história não se repetisse.
Moral da História
Quando se combate um veneno, é preciso esmagar não apenas a cabeça da serpente, mas também quebrar cada ovo que ela possa ter deixado para trás. A complacência e a ignorância diante do mal, por mais belo e inofensivo que ele pareça, pode dar tempo e oportunidade para que o veneno se espalhe e destrua não apenas a diversidade, mas a própria memória de como a paz foi construída.



