12 de março de 2021

MOTE EM DEZ PARA DESAFIO


Você vive da fama de outrora

Quero ver se tem marra, se tem brios

Seu prestígio nasceu de desafios

Contra alguns cantadores em má hora

O seu teste vai ser valendo agora

Sou o galo que canta em seu quintal

Vou baixar sua crista no final

Ensinar quando, como e o porquê 

Se eu bater bem de frente com você

Seu seguro vai dar perda total.


Rangel Junior 

28 de fevereiro de 2021

MEU PAI NA CADEIRA DE BALANÇO

A cadeira balanço, feita com ferro e trançada com fios de plástico, vai e vem, mas é um vai e vem controlado. Suas bases estão presas em molas de metal sobre outra base fixa que serve para dar-lhe estabilidade e permitir que as molas presas na frente e atrás promovam o balanço até um certo limite.


Meu pai está nela sentado e não me vê. Perto de completar seus 93 anos, ele ainda alimenta certa esperança no inverno e na política. Mais cedo me disse pra ter paciência, pois o inverno no semiárido nunca foi regular e na política, um dia, tudo haveria de melhorar.


Observo-o à distância pra não atrapalhar sua concentração, apesar de que eu pagaria caro pra saber o que se passa em sua cabeça, no seu olhar distante, e quais operações imaginosas estão se processando sob aquela rala camada de fios de neve em que se tornou sua outrora frondosa cabeleira.


Uma mosca teima em incomodá-lo e ele parece ter desistido de brigar com ela. A vida é assim mesmo, o tempo ensina a brigar somente por coisas muito importantes. Estava há pouco com a raquete chinesa na mão, agora a pôs descansando sobre suas pernas, talvez guardando energia para possíveis pernilongos. Ele costuma me dizer que a raquete mata-mosquito dos chineses só perde pra bússola em termos de invenção.


Fico ali escondido tentando imaginar quanta carga pesada de história e experiências se abrigam sob aquele corpo alquebrado, o rosto engelhado e as vistas cada dia mais curtas. Adolescente na segunda guerra, maduro na ditadura brasileira depois de 64. Os calos de outrora em suas mãos já desapareceram e sempre aperta muito os olhos para perceber algum detalhe, mesmo com suas pesadas lentes “fundo-de-garrafa”. Nega-se terminantemente a usar lentes multifocais, pois “dá muito trabalho ficar treinando pra acostumar os olhos em cada direção diferente”.


É assim o meu velho pai. Desse jeito! Olho pra ele e vejo um relógio antigo, com seu pêndulo pra lá e pra cá, teimando em bater, alimentado por uma corda, sabe-se lá dada por quem, mas ali, repetindo rituais cotidianos como uma máquina quase perfeita.


Sinto uma enorme vontade de ir lá, falar com ele, tirá-lo daquele aparente sossego de monge, mas me contenho. Apenas me escondo pra não ser notado e não interferir na cena, que não se mova uma folha que não seja por causa do vento. 


O frescor da sombra da tarde, que já prepara o ocaso, me faz viajar por infindas estradas. Sinto um cheio de café e “urêia-de-pau” vindo lá da cozinha e percebo que ele também sentiu. É minha mãe cuidando de todos nós, numa cozinha imaginária, que desenhei em meu peito e fiquei aqui, deitado nessa rede, balançando de leve e brincando de matar saudades.


Como diria Caetano Veloso, 

“És um senhor tão bonito/

Quanto a cara do meu filho/

Tempo, tempo, tempo, tempo…”


(Rangel Junior, em 27/02/2021)

28 de outubro de 2020

DIA DO SERVIDOR PÚBLICO

 Servir à sociedade

Ao povo, sem distinção 

Pois é o povo o patrão

Quem demanda de verdade

Seja no campo ou cidade

Cuidar bem do seu labor

E trabalhar com Amor

Sem procurar ser servido

É muito forte o sentido

Da palavra *"servidor"*.


Ser pontual, competente

Empático e bom no trato

Respeitar sempre o contrato

Que o faz ser diferente

Pra servir a toda gente

Analfabeto ou doutor

Buscar a honra,o louvor

Sentindo o dever cumprido

É muito forte o sentido

Da palavra *"servidor"*.


"Servidor" é profissão

Quase profissão de fé

E quem sabe como é 

Considera uma missão

Trabalhar, ganhar o pão

Sem buscar nenhum favor

Lutar com o mesmo ardor

Pelo direito perdido

É muito forte o sentido

Da palavra *"servidor"*.


Respeitar códigos e ser

Atento ao que manda a lei

Se não sabe, diz: "Não sei!

Mas quero logo aprender

Pra melhorar meu fazer"

Criativo e criador

Servir é ser provedor

Do povo tão esquecido

É muito forte o sentido

Da palavra *"servidor"*.


Que seria do Brasil

Sem o SUS, sem a ciência?

Tá faltando consciência

A um governante vil

Que ao capital é servil

Entreguista e traidor

Mas tem muito lutador, 

Lutadora e povo unido

É muito forte o sentido

Da palavra *"servidor"*.


Imagine o seu país

Sem a universidade

Que pesquisa de verdade

Numa justa diretriz

Isso que digo condiz

Com futuro promissor

O povo é que é senhor

E mandatário escolhido

É muito forte o sentido

Da palavra *"servidor"*.


Deixo aqui o meu recado

A quem tem força e coragem

Não embarque na "viagem"

Do "público" privatizado

O servidor tá do lado

Do povo trabalhador 

Pois sente também a dor

Do que foi sempre oprimido

É muito forte o sentido

Da palavra *"servidor"*.


*Rangel Junior*

7 de junho de 2020

O FUTURO É CHEIO DE PASSADO

Um amigo longevo me escreveu uma mensagem em que comentava sobre os anos 60, das poucas opções tecnológicas de informação e comunicação, da censura, etc. Fechava sua curta mensagem com “...mas éramos mais felizes que hoje.”

Daí eu fui comentar e terminei por me alongar um pouco. Mandei um longo comentário pra ele. O que publico aqui é o texto com ajustes.

Em qualquer conta haveremos sempre de concluir que “éramos mais felizes no passado”. Muito humano isso. Alguns indicadores. Quando muito jovens, o tempo pra nós é quase uma abstração. É como se nem existisse. Nós o engolimos com uma voracidade de feras. Sabe o por quê? Porque somos cheios, emprenhados de futuro. Ali, o presente é como um copo d’água, que bebemos sofregamente, saciamos a sede imediata e seguimos em frente. Hoje nós somos o futuro. Aliás, somos aquele futuro que sonhávamos no passado. Não do jeito que sonhávamos, mas somos o futuro do passado.  Dito de outro modo, talvez sejamos o futuro, porém um futuro cheio de passado e pouco futuro. Uns mais que outros, é bem verdade.

Se ontem éramos muito rápidos e tínhamos pressa em tudo, os dias se sucediam como um eterno despetalar da “folhinha do ano” e nós nem nos dávamos conta direito, agora os dias passam velozes e nós ficamos lentos. Queremos que eles passem lentos, queremos segurar o tique-taque inexorável de modo a ganharmos mais tempo. Tempo, tempo, tempo...que já não é mais uma abstração, mas uma espécie de guilhotina que nos ameaça.

É, meu amigo! Neste momento, vejo o tempo de uma forma extremamente ambígua. É como se ele fosse um grande aliado e ao mesmo tempo meu maior inimigo. Eu acredito que os mais longevos somente o são porque conseguem se manter emprenhados de futuro. Voltar a pintar, por exemplo, é o seu futuro. Planejar coisas novas e realizar coisas novas lhe enchem de futuro. Eu estou nessa. Principalmente olhando para experiências como a sua, do nosso amigo carioca e alguns poucos que vejo nessa linha.

Estranhamente, cada vez mais sinto que precisamos nos agarrar ao presente como forma de fugirmos desse “mal do século”, que é a ansiedade. Ao mesmo tempo, é o que não temos, o futuro, que nos impulsiona adiante. Esse nosso jeito de ser humanos.

Agora um desafio: imagine você hoje, com a agilidade e o tesão dos 20 anos… Não vejo futuro nisso. Viver o tempo de hoje e cada coisa a seu tempo, sem dúvidas é onde reside mais sabedoria. Melhor deixar como está!

Tirando a parte da nostalgia e das perdas sucessivas de antigos amigos, o tempo de hoje é mais complexo e fugaz, por isso envelhecemos aprendendo a degustá-lo devagar, saboreando cada segundo, cada pincelada na tela, cada acorde ao violão, cada gole de vinho ou cachaça, cada cafuné de um filho, um neto, um amor. Tempos em que um carinho às vezes vale mais que um orgasmo.

Estou quase entrando nessa fase. Ao menos me preparando pra vivenciá-la. Venho tentando ser mais cuidadoso com o tempo, respeitando sempre o meu próprio tempo, ao tempo em que vivo desejando e esperando que ele seja também generoso comigo.

Bom dia.
Meu abraço.
Rangel Jr.
(Em 02/06/2020)





5 de março de 2020

MEUS EUS - SONETO INCOMPLETO

Quisera essa luz que têm os vates
Lumiasse uma triste noite escura
E fizesse brotar da mente impura
Dois quartetos, quiçá, mesmo escarlates.

Coração que se preza não conjura
Se a paixão é loucura? Não empates!
Deixa ao cérebro a química dos debates
E os vieses sutis da conjuntura.

E então, o do contra vem contente:
– Faltará além deste outro terceto?
“Se faltar eu arrisco novamente!

Em fincar no juízo um grande espeto
E depois nunca mais, nem morto eu tente
Inventar de compor mais um soneto.”

Campina Grande, Agosto de 2012.