17 de dezembro de 2009

PENSANDO COM SCHOPENHAUER

Fui presenteado por uma prezada amiga com um livrinho superinteressante. Ainda acho, como dizia o velho slogan da inesquecível Livraria Pedrosa em Campina Grande, que o livro é o melhor presente. Dele extraio e divido algumas ideias.


"Assim como o caminho que percorremos fisicamente sobre a terra é apenas uma linha e não uma superfície, na vida, quando queremos agarrar e possuir algo, devemos deixar muita coisa à direita e à esquerda e renunciar a diversas outras. E se não soubermos lidar com tal fato e, ao contrário, tentarmos pegar tudo o que nos atrai pelo caminho, como crianças na feira, é porque temos a aspiração insensata de transformar numa superfície a linha de nossa vida; corremos então em ziguezague, vagando aqui e ali como fogos fátuos, e não conseguimos nada".


Por hoje é só e suficiente. Deixo-vos com esta máxima.


O BLOGUEIRO, QUE JÁ É SAZONAL, ESTÁ PRESTES A ENTRAR EM RECESSO.

11 de dezembro de 2009

ESSE SOU EU E MAIS UM POUCO

A terra pegando fogo ao sol de Janeiro
A chuva emoldurando canções de ninar gente grande
O cheiro de mormaço caririzeiro
O peso das horas se espalhando em sentido anti-horário
A flor do mandacaru gritando desejo invernoso
O furioso ganido de um cão preso a uma corrente imaginária
O céu e o inferno na terra em permanente transe
A loucura cotidiana de querer ser tudo sendo tão pouco
A maciez do caju maduro se abrindo de felicidade
O delírio quixotesco de um andarilho maltrapilho com eternos moinhos a vencer
Avatar de priscas eras, metamorfoseado em tosco e contorcido bonsai
Alinhavador de canções que talvez nunca cheguem a ser terminadas ou escutadas.
Esse sou eu e mais um pouco, ainda no louco delírio de me descobrir!

6 de dezembro de 2009

ONDE ESTÃO NOSSOS HERÓIS?


Às vezes, pra fazer o que é certo, é preciso sermos firmes e desistir daquilo que mais queremos. Até dos nossos sonhos. Dito assim, como frase de efeito pra começar um texto, indica quase que claramente que o autor buscou inspiração num daqueles livros de pensamentos e frases marcantes.

Pode até parecer inusitado, mas a frase foi pronunciada por Tia May a Peter Parker, no meio de um de suas crises entre ser ou não ser o Homem-Aranha. A mesma frase ele repete um dia pro Dr. Octopus, tentando trazer à tona a sua consciência de homem bom. Neste filme, depois de uma sequência fantástica de luta em que ele evita um desastre enorme e salva um trem lotado de passageiros e após ter sua identidade secreta revelada, escuta de um garoto:
- Não vamos contar pra ninguém!

- Eu vou ser sempre o Homem-Aranha, por isso não posso ficar com você, diz Peter a Mary Jane nas entrelinhas. Noutro dia, após a amada desistir do casamento com o filho de seu maior desafeto e perseguidor diante do altar ele escuta de Mary Jane:
- Eu fiz o que tinha que fazer. É errado fazermos as coisas pela metade, não sermos completos...

E desde quando fazemos as coisas assim por inteiro? Eu diria que talvez apenas nossos heróis são capazes de tal feito. E pra que servem os heróis se não pra nos ensinar que as coisas que devem ser feitas têm que ser feitas, mesmo que isso nos custem um enorme sacrifício? O mais complicado dessa história toda é sabermos exatamente quais são as coisas certas e que devem inevitavelmente ser feitas.

A vida inteira passamos tomando decisões sobre isso ou aquilo. Desde a mais tenra idade, quando os juízos morais começam a se formar em nossa consciência, não fazemos outra coisa. O tal do livre arbítrio não passa de um nosso juiz interior que fica o tempo todo batendo aquele martelinho na mesa e proferindo sentenças. Muitas vezes elas são dolorosas, nos trazem sofrimento psíquico, remorsos e mesmo dores físicas, mas o fundamental é termos a clareza de que fizemos "a coisa certa". É isso que dá sustentação aos nossos desígnios e nos dá a exata dimensão de que não devemos ficar culpando o destino pelo que nos acontece ou à nossa volta.

Tirando o fato de que não precisamos ter um dupla identidade como a maioria dos nossos heróis da ficção, para que tomemos sempre a decisão de fazermos o que deve ser feito, custe o que custar, temos no mais íntimo de cada um de nós um pouco desses heróis que nos alimentaram a fantasia desde pequenininhos. Afinal, imagine se não fossem os caçadores da história de Chapeuzinho Vermelho...

Fazendo exercício de viagem interior, me vêm a lembrança Roy Rogers, Tex Willer, Zorro, Super-Homem, Batman e tantos outros... até o Super-Pateta. Mas, e qual o lugar ocupado por Che Guevara, Fidel Castro, Vitor Jara, Lenin, Zumbi dos Palmares, Oswaldão, Lenira, Ghandi, Maurício Grabois, Nelson Mandela, Luther King... e tantos outros que poderia encher uma página inteira.

Temos heróis e Heróis. Todos eles nos fazendo companhia e sendo um pouco do que nosso alter ego nos diz o tempo todo que devemos ser. Os heróis nos servem também para que tenhamos vez por outra a coragem de fazer aquilo que devemos fazer, mesmo que nos doa. Afinal, dentro de cada um de nós habita também um herói invisível que nos faz ser melhores do que seríamos sem ele.

28 de novembro de 2009

SOBRE GATOS, GENTE E SAUDADE

Um miado infantil de gato. Outro miado insistente se aproximando. Outro e mais outro e daí a pouco saio do lugar pra ver o movimento. Eram três. Gatinhos de uns dois ou três meses, provavelmente morando lá. Nada demais se não estivéssemos num cemitério.

Os gatos têm costumes interessantes. Eles roçam, se esfregam literalmente em nossas pernas quando querem um afago, totalmente domesticados parecem já nascer com o código genético totalmente redefinido com a perda total de sua original ferocidade felina.

Nada demais se não estivéssemos num cemitério assistindo a ‘seo’ Ciço de Camelo colocar os últimos bocados de massame nos tijolos que fechariam em definitivo a urna em que Dona Beatriz ficaria definitivamente aprisionada. Pode parecer “coisa do além”, mas foi exatamente assim. Logo ali e logo com ela que era apaixonada por gatos. Cinco ou seis testemunhas, Vinícius com minha lanterna inocentemente alumiando alternadamente a carroça de onde o coveiro tirava o massame e a parede do túmulo onde titia estava sendo sepultada. Era noite no mesmo cemitério onde já fiz até serenata em véspera de finados.

A vida de Dona Beatriz foi cercada por gatos. Minha infância em sua casa foi cercada por gatos. Um angorá, um mourisco, um amarelo... sempre os gatos fazendo-lhe companhia. Até que Mustafá, o seu último preferido se foi em definitivo e ela perdeu o gosto por criar gatos. Mantinha a sua última foto, feita pelo celular de Tia Zorilda, em um porta-retratos por sobre a base de sua estante, bem perto da TV por onde ela via o mundo.

Em sua temporada de mais de 15 anos entre a cadeira de rodas e a cama, guardando e domesticando suas dores a cada segundo, Titia olhava o mundo de uma forma interessante. Ela chamava de “minhas alegrias” suas dores atrozes de uma artrite reumatóide que lhe tirara quase todos os movimentos e sua capacidade de manipular objetos.

Quinze anos e mais um pouco de um quase martírio. Um sorriso permanente nos lábios, uma charada pronta pra qualquer visitante, uma anedota na ponta da língua pros mais íntimos, uma história do passado pros familiares ou amigos, uma lembrança doce de sua memória prodigiosa, uma palavra de conforto pra quem a visitasse cheio de lamúrias, pensando que iria confortar uma doente e saía de lá confortado.

Teve em Rosani Freire, Cornélio e filhos a família que não tinha ao seu lado. Teve em Lúcia, sua auxiliar e “enfermeira”, a filha que nunca teve e, como dizem, o anjo da guarda que a protegeu, a carregou literalmente nos braços entre a cama, a cadeira de rodas, o banheiro, alguma novena ou visita especial e assim foi sua vida nos últimos tempos.

Se alguém lamentava pelo fato de estar ali há tanto tempo ela respondia: “e o filho de Heleno que nunca soube o que é andar? Eu ainda andei e fiz tudo sozinha até os 55 anos”. Sua coleção de chaveiros na parede, seus livros, seus discos, sua inquebrantável fé, sua prontidão pra ajudar alguém que precisasse de uma palavra de conforto, sua disposição para a vida.

Há pouco mais de três meses fez uma cirurgia em um olho e me disse: “se eu perder a visão completamente não fica quase nada. Então, se eu puder ver já terei mais motivos pra me alegrar um pouco". E assim foi ao Dr. Sabino Rolim pra “arrumar” seu olho direito com a cirurgia de catarata enquanto o esquerdo dava mostras de não poder mais ser recuperado.

“Decolores! Decolores é a primavera florindo caminhos... Decolores! Decolores são todas as flores são os passarinhos!” É a sua cara guiando o grupo de jovens Decolores em Juazeirinho lá pelos anos 70, junto com Dona Madalena e Rosinha Zelo. Ainda tentei entoar em sua despedida, depois de uma provocação de Verônica ao lado de Zé Martins, mas a voz embargou e um arrepio me impediu. Encabulei!

Uma das maiores e melhores lições de vida que já pude receber. Setenta e Cinco anos de alegria e dedicação à vida. Verdadeira celebração.

Os acordes que hoje consigo ‘impor’ ao piano são resultado do que aprendi com ela na igreja de Juazeirinho por volta de 1977, entre meus 15 e 16, quando resolveu passar uma temporada em São Paulo e eu fui o escolhido para sucedê-la na Sarafina. Ensinou-me a escala natural de tons maiores e menores e lá fui eu dar conta de acompanhar todas as missas dali em diante. Descobri que sou do tempo de Sarafina. Pra quem não sabe, um órgão de fole de pedais, alemão (o da igreja de Juazeirinho deixaram ser literalmente comido pelos cupins, apesar de minha insistência, à época, em trocá-lo por um eletrônico com o objetivo de recuperá-lo), que recebia o nome de Harmônio, muito comum em igrejas lá pelos tempos de antigamente.

Além de acompanhar as missas eu pegava as chaves da igreja na casa de Dona Nevinha de Chico Antero e treinava algumas tardes aquilo que seria tocado no domingo. De quebra aproveitava pra ‘tirar’ algumas canções de Padre Zezinho e, sem medo de pecar, aproveitando a maravilhosa acústica da igreja, arriscava algumas de Roberto Carlos. Sozinho... Arrepiante! Não havia pecado! Tentava transpor o que sabia ao violão pro Harmônio.

Aprendi muita coisa com Titia. Uma delas foi a não desistir nunca.

Na estrada de volta pra Campina, com a mesma melancolia de outras duas viagens que já fiz neste semestre quando fui me despedir de Dona Neide, minha Mãe, e de Iuri, meu sobrinho, ‘viajei’ junto com ela nas belas histórias do passado, como falava com Ivam Freire no Bar de George há poucos dias enquanto degustava uma deliciosa rabada: era uma figura fenomenal.

Os gatos, que foram sua companhia predileta, depois das pessoas, marcaram presença em seu último adeus. Com poucas testemunhas, mas estavam lá como que para agradecer pelo seu carinho com os seus.

Coincidências? Se há algo de sagrado nisto, de místico, de misterioso, de secreto... só quem já partiu poderia saber. Como não vai contar... fica o registro! Fica a minha saudade... doce saudade...

26 de novembro de 2009

SOBRE ACEROLAS, MAMÕES E A VIDA


Colhendo acerolas aos montes sinto uma sensação gostosa de realização. Algo assim tão simples como tomar um copo d'água da minha quartinha, fria, com gostinho de barro e de infância. Olho pra Pitangueira que está crescendo e sonho com suas azedas frutinhas e até arrisco pensar num licor especial que prepararei pra distribuir com amigos.

Colhendo mamões lindos, amadurecidos no pé e tão aguados sinto uma pontinha de frustração e outra de alegria, ao tempo em que faço uma constatação quase fria como a água da quartinha de barro: a vida nem sempre é doce. Aliás, tão poucas vezes a vida é doce que mais parece esse mamão que resolvo comer, mesmo com seu sabor de quase nada, como se todo o açúcar do mundo tivesse se escondido na hora de passar por aquele Mamoeiro.

A questão é que tanto o pé de acerola quanto o de mamão me foram presenteados por Dona Neide, minha mãe. Com sua mania de produzir mudas e sair presenteando me fez cativo de tal costume. Tenho até algumas de graviola e atemóia que consegui produzir em casa e espero que virem frondosas fruteiras e deem bons prazeres a quem as adotar.

Assim como as maravilhosas acerolas gigantes e de macia polpa me lembram as coisas boas e doces, as maravilhosas reminiscências de minha mãezinha e sua alegria motivada por coisas tão simples e pequenas, o mamão aguado também me fazem lembrar o aguado da vida e sua via crucis de quase 25 anos entre médicos e hospitais lutando por seu bem mais precioso, a própria vida.

Hoje vejo com certa tranquilidade que, pra ela, havia chegado seu tempo de "desistir" de lutar contra algo inexorável. Afinal, somos todos assim! E como na vida há tempo pra tudo: pra escolher sementes, pra semear, pra regar, pra podar, pra colher... há o tempo de completude de ciclos, essencialmente de vida, que se completam e se reiniciam com a morte. Ou seja, deixamos de ser o que somos pra nos transformarmos em outras coisas. E olhe que falo apenas de física. Assim como tudo o mais estamos o tempo todo nascendo, morrendo, terminando, começando e recomeçando...

Por hoje, morro nas coisas que deixei de fazer, renasço nas coisas que fiz durante o dia, nos amigos (de sempre) que abracei, no cheiros que senti, nas idéias que plantei, nos sonhos que alimentei, naquilo que sempre fui e estou sendo, diferente sempre e parecido como se não fosse.

Vai entender...