11 de maio de 2010

COMPONDO PRA NÃO DECOMPOR

Certa feita, uma jovem jornalista chegou pr'uma entrevista com Dorival Caymmi, já passado  dos 80, e entre tantas perguntas soltou esta:

- Seu Dorival, o que o senhor está compondo agora?
Ele respondeu, na bucha:
- Minha filha! A esta altura da vida eu estou mesmo é decompondo!

É meio trágico, mas é poético! Por que não?

Lembrei desta passagem por conta de uma anotação que fiz noutro dia numa das páginas finais de minha agenda, mania antiga. Não sei se por acaso...

"Um dia desses desaparecerei. E essa é uma das razões por que vivo aparecendo por aí, aqui e alhures.

Às vezes desafio a física e, dentro de mim, quase sempre, estou pelo menos em dois lugares ao mesmo tempo. Ao menos quero.

Sou uma espécie de malassombro de mim."

10 de maio de 2010

SE ACASO VOCÊ CHEGASSE

Este blogueiro desleixado e inconsequente anda sem inspiração e há 20 dias não publica nada, não comenta, não escreve, não isso, não aquilo. Escolhi não dizer nada quando sentir que não tenho nada que valha a pena ser dito.

Devo satisfação porque tenho certeza que algumas pessoas me visitaram e, ao perceberem a repetição insossa da mesma postagem, certamente pararam de visitar esta página. É assim que ocorre no universo da internet. Vivemos da novidade! Num blog mais ainda.

Falei do 21 de abril em meu último escrito e agora resolvo falar do 9 de maio. Ontem, isso mesmo, foi o Dia das Mães. Coincidentemente, o dia do aniversário de 72 anos da minha mãe. Vez por outra as comemorações se bifurcavam. Infelizmente, o primeiro ano em que, pra mim, a data foi mais vazia de sentido.

Festas e mais festas, almoços de confraternização, brindes e eu com minha melancólica lembrança e meu jeito próprio de me agarrar às minhas lembranças como forma de aprisionar o tempo, de trazer pra perto de mim certas imagens que, carregadas de saudades, terminam por me remeter também a um tempo em que as coisas eram bem menos complicadas.

Não tem como explicar nem quero transformar este blog em público diário íntimo. De qualquer modo, sempre que tenho um mínimo de clareza do que estou a dizer, registro impressões sobre a vida, as pessoas, o mundo.

Desta feita é sobre a noção de família e como uma mãe consegue traduzir isso melhor que ninguém. A imagem da galinha de asas arqueadas a proteger seus pintinhos é recorrente, pois foi esta visão que sempre tive de Dona Neide. Como acontece com os pintos, vão crescendo e depois que viram galos (não tem jeito. Pulei a etapa do 'frango', pelas conotações preconceituosas que recebe por aqui), até parece que o instinto fala mais alto e já que não há mais asas onde se abrigar o melhor é ir por aí trocando bicadas.

Como dizia Paulo Diniz em uma de suas canções, "é cada um por si e deus por todos nós..." Confesso um relativo tédio para certas convenções familiares. Desenvolvi tais sentimentos depois de experiências não muito agradáveis neste âmbito. Essa coisa de experiência vale por quinhentos milhões de tratados. Nos olhos dos outros é refresco... Nada será como antes! É a lei da vida, regida pelo deus mudança.

O mais importante nisso tudo é que ainda dorme aqui dentro um coração de criança, o mesmo daquele menino de Juazeirinho que continua conjugando o verbo amar preferencialmente no presente. Agora o outro lado: nem sempre ele (o coração de menino) pode guiar as ações do adulto, invólucro que o protege.

É isso!

P.S. O título da postagem, sem conexão com o conteúdo, é proposital. Trata-se de uma canção antiga de Felisberto Martins e Lupicínio Rodrigues, uma das preferidas de minha mãe e que eu tive a alegria de acompanhar muitas dezenas de vezes ao violão.

21 de abril de 2010

AS CORES DE ABRIL

É difícil falar de singeleza quando se trata de Vinícius de Moraes e Toquinho, em forma de letra, música e poesia. Praticamente tudo que eles produziram revela este traço fundamental.

As cores de abril,
Os ares de anil,
O mundo se abriu em flor.
E pássaros mil,
Nas flores de abril,
Voando e fazendo amor.

O canto gentil
De quem bem te viu
Num pranto desolador.
Não chora, me ouviu,
Que as cores de abril
Não querem saber de dor.

Olha quanta beleza,
Tudo é pura visão
E a natureza transforma a vida em canção.
Sou eu o poeta quem diz:
Vai e canta, meu irmão,
Ser feliz é viver morto de paixão.

Abril começou com o Dia da Mentira. Já tivemos a Semana Santa, agora amanheço estudando ao som do Hino Nacional Brasileiro, do Hino à Bandeira e do Hino da Independência... dobrados e marchinhas. É o meu vizinho, 'Seu' Lourival, morador duma edícula e promotor de alvoradas dominicais ao som, ora de Luiz Gonzaga, ora de seresteiros memoriais. Alguns que nem sei o nome.

Pois Seu Lourival tem um hábito interessante de "abrir a sua programação musical" de conformidade com o período do ano, a data comemorativa e por aí vai. Com tantos hinos executados me dei conta que era 21 de Abril. Tiradentes, Brasília, Tancredo Neves, Seu Tonito...

Tiradentes! Eis um excerto do texto de sua condenação que foi lida durante 18 horas, sob o maior escarcéu.

"Portanto condenam o réu Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes, alferes que foi do Regimento pago da Capitania de Minas, a que, com baraço e pregão seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca, e nela morra morte natural para sempre, e que depois de morto lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde no lugar mais público dela, será pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma, e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo caminho de Minas, no sítio da Varginha e das Cebolas, onde o réu teve as suas infames práticas, e os mais nos sítios das maiores povoações, até que o tempo também os consuma, declaram o réu infame, e seus filhos e netos tendo-os, e os seus bens aplicam para o Fisco e Câmara Real, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e não sendo própria será avaliada e paga a seu dono pelos bens confiscados, e mesmo chão se levantará um padrão pelo qual se conserve em memória a infâmia deste abominável réu; [...]"

Deu no que deu: quem e Dona Maria I para a história brasileira?

Brasília foi construída, por decisão de JK, sob ferrenhas críticas. Dizem até que a dívida brasileira provém de lá. Creio que é um exagero, se não uma mentira mesmo. O resultado é que o Rio de Janeiro continua lindo, com toda sua pujança e poder, enquanto Brasília já é patrimônio cultural da humanidade. Obra de políticos, urbanistas, arquitetos, engenheiros e milhões de trabalhadores, homens e mulheres comuns. Brasília provoca certo estranhamento em quem a vê de perto pela primeira vez. Dizem até que se estabelece uma relação de amor ou ódio em relação a ela e os sujeitos humanos que vêm de fora. Ela está lá, pujante, 50 anos de rapinagem e de história como epicentro dos acontecimentos políticos do país. Muito do que aparece por lá, entretanto, é gestado na periferia dos Estados federados.

Tancredo teve o dia 21 de Abril escolhido (eu acredito nisto pelo que acompanhei à época) para ser o dia de sua morte. Algo que os bastidores da história talvez um dia contem. Tancredo é o Presidente que não foi e que o Brasil não sabe. O troco foi Sarney que aí ainda está a fazer das suas estripulias políticas.

Seu Tonito era um homem simples, nascido no sítio Aroeiras de Juazeirinho e que viveu entre 1927 e 1977. Faria hoje 83 anos se vivo fosse. Era meu pai e continua sendo uma espécie de guia pela vida afora.

12 de abril de 2010

LEI SECA

Um dia ainda criarei coragem de comentar pra valer a tal Lei Seca brasileira. Não sou um apologista da combinação álcool-direção (nem sou louco nem irresponsável!), mas acho que essa Lei, da forma como está, ou muda, criando categorias, critérios diferenciados, dosagens para cada tipificação do que seria considerado delito, ou seu caminho é cair na vala comum das leis que não são cumpridas neste país.

Achei um vídeo muito bacana na internet e nem sei se já é muito conhecido, mas foi postado semana passada e, apesar do audio em inglês, dá pra compreender tudo de forma muito legal. Daria nota 10 pra ele.

Confira!

1 de abril de 2010

SEMANA SANTA

Uma polêmica tomou conta de uma cidadezinha paraibana por conta de um pequeno empresário de shows que marcou uma festa para a noite da sexta-feira. Ora, logo na sexta da paixão?
Fosse em Campina Grande não seria de estranhar. Aqui o carnaval - que é a festa da gandaia, da fuleiragem, do desmantelo autorizado - foi transformado pelos cristãos de todas as ordens num grande retiro espiritual e momento de louvação. Claro que também há espaço pras brigas entre correntes religiosas e disputas com todos os matizes perversos imagináveis.
Em meu retiro voluntário, que de santo não tem nada, fico aqui com meus botões pequeninos lembrando dos velhos tempos de Juazeirinho e todos os rituais de um cristianismo católico ainda guardador de tradições tão arcaicas quanto não tomar banho na quarta-feira de trevas, não comer carne antes do sábado de aleluia, toda aquela pantomima silenciosa.
Na semana santa era quase proibido pisar no chão pra não fazer barulho. Imagino que os mais velhos ficavam se lambendo de vontade, pois nem enxerimento podia ser feito nesse período.
Chegava a sexta-feira e a turma mais velha e menos reprimida varava a noite roubando galinhas gordas nos muros alheios pra guisar na cabidela no sábado. Aí o bicho pegava, pois à noite já tinha o judas e a turma fazia a malhação com o quengo cheio de goró.
Por aquela época o sucesso era coca-cola com Pitu, Casa Grande ou Caranguejo, as mais famosas e baratas.
Ainda ia esquecendo do começo de tudo com a bonita festa do Domingo de Ramos, que simbolizava (ainda é assim) a chegada/retorno de Jesus antes do martírio. Aquele povo todo com seus galhinhos de mato, palhas de coqueiro... era muito bacana!
O tempo passando e levando a ingenuidade, que se transformou em inquietação, ceticismo e rigor em busca de outras expressões de 'verdade'. Restou em mim uma lembrança gostosa e mesmo saudosa de tudo aquilo, além de muita coisa da ética cristã que, lamentavelmente, grande parte dos seguidores que conheço não tiram nem um fino no agir cotidiano.
Confesso também uma certa decepção com o projeto evangelizador/civilizador/dominador do cristianismo Seja em quaisquer de suas vertentes) na sua ânsia de domar os desejos de homens e mulheres deste mundo, estes em sua infinita luta entre serem animais ou humanos.
Com todo respeito, mas você confiaria um filho (ou filha) seu aos cuidados de algum religioso, entre quatro paredes, para que este lhe desse orientação sobre a vida? Tá difícil!