12 de junho de 2009

INTERAGINDO COM OS COMENTÁRIOS... E OS SONHOS

A leitora Kátia Lima questiona e dá uma dica sobre o tema "FELICIDADE, O QUE É FELICIDADE? DE ONDE ELA VEM, QUEM É MAIS FELIZ ESTE OU AQUELE? O SÁBIO OU O IGNORANTE? É AMIGO... TEM COMO SABER NÃO, O NEGOCIO É IR VIVENDO,"(...) - De fato, as agruras e percalços no caminho são tantos que a melhor alternativa é 'ir vivendo', pois é dessa forma também que, estando ligado nos acontecimentos e abertos pro mundo e pras experiências é que desenvolvemos nossa capacidade de conhecer mais a vida e, por consequência, viverrmos melhor. Débhora Melo dá uma pista interessante quando afirma que o gosto da vida é "um gosto agridoce. Nela, vivenciamos prazeres e dores, emoções e decepções, alegrias e tristezas... e por aí vai! Essas misturas só nos fazem ser um SER sem receita, mas com diferenciados sabores." - Creio que alguém já falou isso, mas não custa repetir que provavelmente o mais belo da vida seja exatamente a diversidade. Tanto a diversidade de experiências quanto o seu resultado que é também uma individualidade completamente distinta para cada um. Ningúem se repete nem é repetido, por mais que possa pensar em uma ou outra circunstância. Aninha (Ana Santos), além de assegurar que tem nesses dois conceitos, "Felicidade e Simplicidade", seus objetivos, levanta um questionamento sobre como ser simples num mundo cada vez mais complexificado. Ela diz: "Tenho a impressão que a cada dia ser simples torna-se mais complicado. E a tal felicidade depende tanto de descobrir o que queremos afinal. Essa é uma pergunta que espero responder algum dia. Qual é a minha simplicidade? Qual o caminho para ser feliz?" Logo depois afirma que é, naquele momento, "melhor ir assistir Curtindo a Vida Adoidado. É mais seguro!". - Sem dúvidas (rsrsrs) assistir Curtindo a Vida Adoidado é bem mais seguro do que pôr em prática a idéia do título. Os que tentaram por muito tempo tal façanha dificilmente atingiram a terceira idade, se bem que alguns sortudos conseguiram. Porém, concordo com a idéia de descobrir o que se quer pra vida e transformar tal (ou tais) escolha (s) em projetos, planos e lutar criteriosamente para sua consecução pode ser um bom caminho. Ou seja, o caminho não existe, mas está pra ser construído, a partir e de conformidade com aqueles objetivos e projetos. Eis o aprendizado da ciência, só que os sábios da antiguidade já falavam disso. A ciência moderna adaptou. A leitora Divanira Arcoverde, além de comentários muito lisonjeiros sobre o blogueiro e suas notas, dá um toque de mestra (que é na vida real) dizendo que "o bom mesmo é sermos sujeitos das nossas histórias, mesmo nas incompletudes ocasionadas por nossas limitações (históricas, sociais,culturais, políticas, econômicas, etc) e procurarmos ser felizes, entre 'sucessos' ou 'êxitos' que nós tenhamos, ou não, conseguido. 'O abismo aberto entre o homem e o mundo' que muitos não conseguiram superar..." - Além de me alinhar às suas teses, registro meu contentamento pela referência à história e a capacidade do ser humano de ser sujeito dela. Sejamos nós, onde nos coubermos, sujeitos de nossas histórias! Rafaela Damiani, de quem lembro sim e muito bem, manda carinhosamente uma mensagem de saudades do "meu tio mesmo depois de muito tempo..." e ainda faz referências às músicas do meu CD que escuta, gosta e com referência especial ao xote "Do céu ao paraíso". Ainda completa dizendo que "queria ouvir outras". - Rafaela! Um prazer enorme saber de você e que você me 'achou' por aqui. Continue acompanhando, na medida do que lhe for possível. Quanto às músicas, no portal PALCOMP3 , você pode baixar algumas e mais adiante ainda disponibilizarei outras. Pretendo gravar CD com inéditas antes do final do ano. Aguarde! Por fim, minha queridíssima professora-orientadora (a simpatia e disponibilidade pra vida em pessoa), Maria Luiza, que faz comentário e deixa um reforço especial de Guimarães Rosa sobre o tema. "O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem!" (Riobaldo Tartarana/Guimarães Rosa). É o fraco! Pra não ficar 'de graça' o complemento dos comentários, uma reflexão interessante de V. I. Lênin sobre os sonhos. Reforça o pensamento desenvolvido por todas. Apesar de muitos atribuírem as frases ao próprio Lênin, sempre deixei bem claro que ele faz referência a uma reflexão de outro camarada seu, no livro "Que Fazer?". O tema surgiu num debate acerca da criação de um jornal [de toda a Rússia], pelo Partido Bolchevique. Por esta razão publico a longa reflexão onde se vê claramente que é uma citação. Afinal, um dirigente revolucionário como ele não poderia deixar de registrar o respeito a uma criação de outrem, pois não? Lênin afirma inicialmente: "É preciso sonhar!" Daí assume que fica meio 'cabreiro' quando fala nesse assunto. Depois, questionado por outros camaradas no debate, ele segue: À simples idéia dessas questões ameaçadoras sinto um calafrio, e penso apenas em uma coisa: onde me esconder. Tentemos nos esconder atrás de Pissarev. “Há desacordos e desacordos", escrevia Pissarev sobre o desacordo entre o sonho e a realidade. “Meu sonho pode ultrapassar o curso natural dos acontecimentos, ou desviar-se para uma direção onde o curso natural dos acontecimentos jamais poderá conduzir. No primeiro caso, o sonho não produz nenhum mal; pode até sustentar e reforçar a energia do trabalhador... Em tais sonhos, nada pode corromper ou paralisar a força de trabalho. Ao contrário. Se; o homem fosse, completamente desprovido da faculdade de sonhar assim, se não pudesse de vez em quando adiantar o presente e contemplar em imaginação o quadro lógico e inteiramente acabado da obra que apenas se esboça em suas mãos, eu não poderia decididamente compreender o que levaria o homem a empreender e realizar vastos e fatigantes trabalhos na arte, na ciência e na vida prática... O desacordo entre o sonho e a realidade nada tem de nocivo se, cada vez que sonha, o homem acredita seriamente em seu sonho, se observa atentamente a vida, compara suas observações com seus castelos no ar e, de uma forma geral, trabalha conscientemente para a realização de seu sonho. Quando existe contato entre o sonho e a vida, tudo vai bem”. (o texto em negrito é transcrição na íntegra e as aspas são do original. A tese original, portanto, é de Dimitri Ivanovitch Pissarev). Bom final de semana!

NAMORADAS E NAMORADOS

Eis uma data do calendário em que o sujeito, querendo ou não, termina por se enquadrar. Afinal, o clima de romantismo (ou a tentativa de...), a lógica de ter um dia especial para homenagear namorados e namoradas. Flores, presentes, alianças e anéis, cartões com declarações de amor, cartas, a declaração (que eu, com todo respeito, acho patética) de amor sob encomenda a uma loja especializada no tipo de serviço, por telefone ou ao vivo, com direito a carro de som, serenata ao vivo (aí já é melhorzinho!), pétalas de rosas jogadas de helicóptero, outdoors espalhados, pichação de muros... tudo vale quando se quer demonstrar pro outro que se ama, ou pelo menos que se gosta, até porque estar apaixonado é uma outra história e isso (quem não sabe?) queima quase tanto quanto um paiol de pólvora, quente, explosivo, passageiro e, às vezes, destruidor. Talvez eu publicasse aqui uma das tantas declarações de amor que já fiz na vida, porém, elas foram dirigidas a quem de direito e não teria sentido eu publicá-las. Quem recebeu em algum momento é que teria este direito. Afinal, as que fiz foram todas muito verdadeiras e vinculadas a cada momento de minha atribulada vida sentimental. Neste sentido, desprendi a fazer declarações de amor e paixão e passe a ser mais exigente em termos de experiência efetiva em substituição às fáceis palavras, já que o tempo me ensinou a usá-las até com relativa facilidade. Escolhi uma outra forma, daquelas de 'viajar' devagar, divagar... assim como de se alugar quatro mosaicos (lembranças do "Motta Som" lá em Juazeirinho) pra dançar coladinho, deixando a vida seguir seu curso agitado e que a linguagem não verbal falasse por si, como diriam Pierre Weil e Roland Tompakow. ONLY YOU Só você CAN DO MAKE ALL THIS WORLD SEEM RIGHT Pode realmente fazer todo este mundo parecer certo ONLY YOU Somente você CAN DO MAKE THE DARKNESS BRIGHT Pode realmente fazer a escuridão brilhar ONLY YOU, AND YOU ALONE Só você e somente você CAN FEEL ME LIKE YOU DO Pode me sentir como você sente AND DO FILL MY HEART WITH LOVE E assim preencher o meu coração com amor FOR ONLY YOU. Porque só você ONLY YOU Somente você CAN DO MAKE ALL THIS CHANGE IN ME, Pode realmente fazer toda esta mudança em mim FOR IT'S TRUE Porque é verdade YOU ARE MY DESTINY. Você é o meu destino WHEN YOU HOLD MY HAND, I UNDERSTAND Quando você segura a minha mão, eu entendo THE MAGIC THAT YOU DO, A magia que você realiza YOU'RE MY DREAM COME TRUE, Você é o meu sonho realizado MY ONE AND ONLY YOU. Meu amor , e só você. ONLY YOU Somente você CAN DO MAKE ALL THIS CHANGE IN ME, Pode sim fazer toda esta mudança em mim FOR IT'S TRUE Porque é verdade YOU ARE MY DESTINY. Você é o meu destino WHEN YOU HOLD MY HAND, I UNDERSTAND Quando você segura a minha mão, eu entendo THE MAGIC THAT YOU DO, A magia que você realiza YOU'RE MY DREAM COME TRUE, Você é o meu sonho realizado MY ONE AND ONLY YOU. Meu amor, e somente você. P.S. Continuo achando que, prum dia assim, cheio de nuvens, ameaça de chuva, friagem se instalando... flores e cafunés valem mais que qualquer presente outro, com todo o respeito à diversidade de opiniões.

11 de junho de 2009

A HISTÓRIA DOS NOSSOS FRACASSOS

(Ou, A Epopéia 'Fracassal' de Fulano de tal até Chegar Aonde Chegou). Estive há uns dias matutando sobre a utilização da palavra sucesso em nossa língua. Sucesso, utilizada principalmente no linguajar artístico, virou sinônimo de popularidade extrema de uma música, de um artista. Ou seja, artista de sucesso é aquele que vende milhares de discos, que leva milhares de pessoas a shows, que tem músicas executadas (ao menos uma) à exaustão nas rádios, que aparece nos programas de televisão do sudeste (Rio e São Paulo). Nos países de língua espanhola, a palavra mais usual para significar o equivalente da nossa 'sucesso' é éxito. Como não sou entendido destes assuntos, fiquei imaginando que a palavra êxito tem uma outra significação, bem mais objetiva e forte pra nós. Dito de outro modo, êxito é sinônimo de acerto, resultado positivo, aquilo que deu certo. Assim é na prática, independente do que diga o dicionário. Obter êxito representa dar conta de uma meta, atingir um objetivo. Sucesso também tem este sentido de resultado esperado. Entretanto, na prática, a palavra é mais usada naquela acepção, voltada para a lógica do sucesso mercadológico. Pegue qualquer CD de coletânea brasileira com este tipo de seleção e vai sempre encontrar a expressão "grandes sucessos" de Fulano de Tal. A pergunta é: e os que obtem êxito (no sentido de resultado positivo) na carreira sem fazer o tal sucesso? Ou seja, os que tem resultados positivos, bancam suas vidas materialmente, são realizados, satisfeitos, felizes, a partir do seu trabalho artístico sem, todavia, alcançarem o tal estrelato ou o 'sucesso midiático'. Aliás, muitas vezes, longe dos holofotes e clics das câmeras dos paparazzi. O trabalho tem como sentido maior, original, a realização humana (da ontologia do ser), para além da garantia da sobrevivência material, mas não deixa de ser verdadeiro também que na sociedade regida pelo capital, a necessidade material é a razão primeira do trabalho. Então, mitificar o trabalho artístico como dependente do chamado sucesso é, de certo modo, criar uma expectativa falsa de que aquele que não atinge tal lugar não pode se realizar profissionalmente, artiticamente. Eis o caminho garantido para a frustração. Dito de outro modo, eis aí um artista de fracasso, o verdadeiro antônimo de artista de sucesso. Na vida em geral acredito que nascemos para o êxito, mas nunca como 'cavalos de corrida' olhando sempre à frente, ensandecidamente em busca do primeiro lugar. Nossos êxitos deveriam ser contados também com o papel coadjuvante dos nossos acúmulos de fracassos, as tentativas e erros até chegarmos ao lugar em que estamos. Já disseram à exaustão que aprendemos mais com os fracassos do que com os acertos. Porém, a história que contamos, regra geral, é a história dos triunfos. Prum artista que sonha em se tornar famoso, alcançar êxito profissional (ou sucesso midiático) é sempre recomendável ler as histórias de vida de tantos artistas que vieram antes e se tornaram exemplos de sucesso, muitos deles apenas na arte e não na vida pessoal. Nestas biografias vamos sempre encontrar a história dos fracassos, se elas forem honestas e bem contadas. Precisamos mostrar sempre essa capacidade de realização, bem como a natureza da falibilidade humana, pois não me restam dúvidas de que entender os nossos fracassos, insucessos, nos levam necessariamente a compreender nossa fragilidade e nossa fortaleza e, essencialmente, criar as condições para não incorrer em novoso tropeços e, desse modo, chegar mais próximo da vitória, que nunca será final, pois que nessa história o fim é sempre o indicativo de um novo começo. Na carreira acadêmica (veja só a ironia inevitável, pois é assim mesmo que é chamada: "carreira") vimos a mesma lógica sendo adaptada. Primeiro é preciso ser mestre, depois doutor, depois pós-doutor, depois o fim. Nesse ínterim é preciso produzir, produzir, publicar, publicar, orientar, orientar, publicar... até atingir os 'píncaros da glória', uma espécie de equivalente ao estrelato na carrreira artística. Dentre tantos poréns e todavias (à semelhança do espanhol que, segundo constatei em Cuba, parece que em tudo hay un pero), entretanto, é preciso lembrar que em meio a tudo isso existe a vida. Afinal, se o sentido maior de tudo é a vida e vida em plenitude, é preciso repensar mesmo e sempre qual o sentido da nossa existência. Mas aí já é uma outra discussão. O célebre verso do poeta 'tudo vale a pena / se a alma não é pequena' é bastante utilizado em relação a "fazer a coisa certa, desde que se faça pensando em fazer bem, ou fazer o bem, ou mesmo com grandeza de espírito". O poema trata essencialmente das verdadeiras epopéias dos portugueses em busca do domínio dos mares e da conquista de outras terras e povos. Ou seja, a história do sucesso do reinado de Portugal e do sofrimento do povo português. Afinal, a história dos êxitos de conquista dos portugueses estão contadas e decantadas em versos e prosas, por Pessoa e principalmente por Camões. Mas, e a história dos fracassos? Os versos de 'Mar Português' indicam um pouco sobre esta outra rota. "Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quere passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu." A propósito, com indicação da professora Maria Luiza Oswald, minha orientadora, busquei um texto do filósofo Leandro Konder sobre carreira e currículo e, impressionado com a profundidade de suas análises, resolvi publicá-lo na íntegra. Está no post anterior, qua aparece aqui como o seguinte.

O CURRICULUM MORTIS E A REABILITAÇÃO DA AUTOCRÍTICA

Por LEANDRO KONDER* A sociedade, modernizada, precisa de organização, eficiência. Para obter um emprego, para conseguir uma promoção, fazer carreira, o sujeito precisa exibir suas qualidades, ostentar seus êxitos. Já existem até manuais que ensinam o cidadão a preparar seu curriculum vitae. A trajetória ascensional de cada um depende dessa peça de literatura, que lembra as antigas epopéias, porque nelas o protagonista – o herói – só enfrenta as dificuldades para poder acumular vitórias. Os obstáculos servem apenas para realçar seu valor. O passado é reconstituído a partir de uma ótica descaradamente “triunfalista”.

Evidentemente, trata-se de uma imagem que não corresponde à realidade. Em sua imensa maioria os seres humanos não são campeões invictos, não são heróis ou semideuses. Se nos examinarmos com suficiente rigor e bastante franqueza, não poderemos deixar de constatar que somos todos marcados por graves derrotas e amargas frustrações. Vivemos uma vida precária e finita, nossas forças são limitadas, o medo e a insegurança nos freqüentam; e nada disso aparece no curriculum vitae de cada um de nós.

O curriculum vitae é a ponta do iceberg: ele é o elemento mais ostensivo de uma ideologia que nos envolve e nos educa nos princípios do mercado capitalista; é a expressão de uma ideologia que inculca nas nossas cabeças aquela “mentalidade de cavalo de corrida” a que se refere a escritora Dóris Lessing. Não devemos confessar o elevado coeficiente de fracasso de nossas existências, porque devemos ser “competitivos”. Camões, o genial Camões, autor de tantos poemas líricos maravilhosos, não poderia colocar em seu curriculum vitae o verso famoso: “Errei todo o discurso dos meus anos”.

A ideologia que se manifesta no curriculum vitae, afinal, aumenta as nossas tensões internas, porque nos dificulta a lucidez e a coragem de assumir o que efetivamente somos; nos obriga a vestir o uniforme do “super-homem”, a afetar superioridades artificiais. Além disso, ela incita à mentira, gera hipocrisia. Por sua monstruosa unilateralidade, a imagem do vitorioso, que ela nos obriga exibir, empobrece o nosso conhecimento de nós mesmos, prejudica gravemente a sinceridade da nossa auto-análise.

É uma ideologia capaz de explorar tanto a burrice como a inteligência; capaz de influir tanto sobre as vaidades primitivas como sobre as culturas refinadas. Para os indivíduos intelectualizados, ela se reveste de máscaras altamente sofisticadas. No caso dos artistas, ela usa a mitologia da genialidade e induz freqüentemente a pessoa a se alimentar de ambições desmesuradas. No caso dos intelectuais em geral, ela se apóia nos mecanismos seletivos da carreira universitária, aproveita as exigências de “publicidade” que se tornaram tão fortes na vida moderna e instiga uns a se afirmarem contra os outros: diminui a simpatia espontânea pelos colegas, a disposição real para aprender com eles, e se fortalece a desconfiança, cresce o impulso no sentido de demonstrar sua própria competência através da denúncia da incompetência alheia.

Claro que não teria sentido imaginarmos que o quadro deveria ser idílico e sonharmos com uma situação na qual os indivíduos jamais colidissem uns com os outros. Sabemos que as contradições nunca vão ser inteiramente suprimidas, que a existência delas é uma dimensão essencial da própria realidade. Sabemos também que o apreço por si mesmo é importante para todo ser humano: se não gostar de si mesma, nenhuma pessoa conseguirá gostar saudavelmente de outra; se não acreditar de fato em suas convicções, não conseguirá comunicá-las a outras pessoas, não conseguirá intervir no mundo, contribuindo para melhorá-lo. A partir de um determinado nível, contudo, a auto-estima fica sobrecarregada de narcisismo e acarreta uma atrofia conservadora da autocrítica.

Podemos então deixar de lado as condenações moralista – inócuas – do narcisismo. Elas são antigas e apresentam escasso interesse teórico. O problema que merece a nossa preocupação é outro: é aquele que se manifesta no efeito conservador da autocomplacência, que coagula o movimento auto-renovador da consciência, enrijecendo-lhe o ímpeto criativo e a abertura para o novo.

É provável que a estrutura da mente humana seja muito mais conservadora do que costumamos reconhecer. Renovar-se, reformular suas idéias, modificar seus valores, é operação dolorosa e arriscada. Quem parece realizá-la com alegre desenvoltura é o espírito frívolo, superficial e sem raízes, que está sempre disposto a acolher as novidades porque na realidade não as assimila (já que não assimila profundamente coisa alguma). Quando a vida obriga o ser humano a mudar os critérios e valores a que ele já tinha se acostumado e nos quais fundara a sua segurança, é natural que ele se angustie. Os próprios neuróticos, embora sofram, se agarram à neurose, porque têm medo de cair em um sofrimento ainda maior.

Nossas sociedades fragmentadas, divididas em grupos, em classes, em nações, em blocos de Estados, tornam muitíssimo mais difícil uma tarefa que por si mesma já é extremamente espinhosa: a de conhecermos as camadas mais profundas da realidade em que vivemos, penetrando gradualmente na essência mais significativa dos fenômenos, enxergando as coisas de um ângulo verdadeiramente universal, quer dizer, comum à humanidade como um todo. A humanidade está dilacerada, os indivíduos não sabem como agir para se tornarem uma encarnação dela. Não sabem o que há de mais universal neles. E isso contribui para que eles desistam da universalidade e se resignem a ser facciosos, unilaterais.

Sofremos todos a brutal pressão decorrente desse quadro, dessas condições. No entanto, volta e meia, no esforço para mudar o mundo, sentimos necessidade de nos unir a outros seres humanos em torno de princípios, que, por definição, precisam ser universais. Como superar o estreitamento dos nossos horizontes, provocado pelo mercado hipercompetitivo, que nos joga constantemente uns contra os outros? Os mecanismos do mercado forçam as pessoas a buscar lucros cada vez maiores, a disputar um lugar de trabalho melhor remunerado, ameçam-nas com o desemprego e a miséria, intimidam-nas com a falência; além disso, disseminam a insegurança e produzem a cristalização não só dos interesses materiais como dos modos de sentir e de pensar. Fortalece-se, nas criaturas, a exigência de forjar álibis.

Marx e Freud descobriram aspectos decisivos da ação das forças que atuam subterraneamente em nós e mostraram que, sob uma capa de “racionalidade”, elas impõem limites aos movimentos da nossa consciência. Mostraram como esquemas explicativos são elaborados e reelaborados em nossas cabeças com a finalidade de nos proporcionar a “boa consciência”, com o objetivo de amenizar nossas dúvidas, atenuar nossas inquietações e evitar a vertigem das nossas inseguranças.

Forjamos para nós imagens que nos ajudem a viver; e nos apegamos a elas. O autoritário se apresenta como “enérgico” e “corajoso”; o oportunista como “prudente” ou “realista”; o covarde com “sensato”; o irresponsável como “livre”. Não existe nenhuma tomada de posição no plano político ou filosófico que, por si mesma, imunize a consciência contra a ação desses mecanismos. Somos todos divididos, contraditórios. Por isso mesmo, precisamos promover discussões, examinar e reexaminar a função interna das nossas racionalizações. Quer dizer: precisamos realizar permanentemente um vigoroso esforço crítico e autocrítico.

A autocrítica é de uma importância decisiva. É por ela que passa o teste da superação do conservadorismo dentro de nós. Um conservador – é claro – pode fazer autocrítica; mas, se a autocrítica for feita mesmo para valer, ele seguramente não estará sendo conservador no momento em que a fizer.

Desde que consiga se instalar solidamente na consciência de alguém, o conservadorismo pode administrar uma grande flexibilidade: pode suportar com tolerância liberal as opiniões divergentes, até as provocações e irreverências alheias. Mas não pode se permitir o autoquestionamento radical.

George Bernard Shaw, que conhecia a significação da autocrítica, disse uma vez que o erudito era um homem que se valia de seus conhecimentos para criticar os outros, ao passo que o sábio era um homem que se criticava a si mesmo. No sentido que Shaw atribuiu à palavra, Marx era um sábio, porque não se limitou a criticar os outros, mas também cultivava – e como! – a autocrítica. Embora suas idéias sirvam de base para as certezas de milhões de militantes que invocam seu nome, Marx declarou a sua filha que, se tivesse de adotar um lema, seria a frase latina que recomendava duvidar de tudo: de omnia dubitandum. Ao completar cinqüenta anos de idade, numa situação de extrema pobreza, Marx escreveu para Engels uma carta (30.04.1868) na qual ria de sua própria incompetência para ganhar dinheiro: “Como minha mãe tinha razão quando dizia o Karl defia saper kanharr o capital (enfez de eskreferr sopre ele)...” (Marx imita jocosamente na carta a pronúncia de sua mãe). Em outra carta para o mesmo amigo de sempre concordava com uma observação de sua mulher, Jenny, que assegurava que, embora vivessem muito mal, após a vitória da revolução o casal passaria a viver pior, porque “teria o prazer de ver todos os charlatães comemorarem o triunfo deles.“ (11.12.1858). Marx não excluía a priori a hipótese de estar fazendo, em determinadas situações, papel de bobo.

Esse espírito autocrítico está presente também em Engels e em alguns marxistas de épocas posteriores, com Gramsci e Walter Benjamin. Ele assume traços de ascetismo nos anos “heróicos” do leninismo “puro”, mas se deteriora na ação dos partidos comunistas colocados sob a liderança de Stálin. A autocrítica se desmoraliza, deixa de ser um ajuste de contas do indivíduo consigo mesmo e é delegada à mecânica das agremiações: o militante faz a autocrítica que a direção do partido lhe impõe.

Agora, com os impasses com que se defronta o movimento comunista, com a ampla exigência de uma renovação do marxismo (no espírito de Marx), estão sendo criadas condições para que também os comunistas reaprendam o sentido da genuína autocrítica.

A verdadeira autocrítica exige uma espécie de “complementação negativa” para o curriculum vitae: depois de apregoar seus êxitos e seus méritos, a pessoa enfrenta o desafio de reconhecer suas frustrações, suas deficiências, seus fracassos, suas fraquezas. Talvez possamos chamar essa reconstituição dolorosa e necessária de curriculum mortis. Os indivíduos mais gravemente contaminados pela ideologia “triunfalista” que se manifesta no curriculum vitae carecem de sensibilidade, de madura lucidez e de coragem intelectual para a elaboração desse curriculum mortis. Eles agem como aquele político conservador que, numa entrevista, respondendo a uma pergunta sobre o maior erro que admitia ter cometido, explicou à estarrecida jornalista: “Meu maior erro tem sido o de dizer as coisas antes de todo mundo, cedo demais, quando os espíritos ainda não estão preparados para compreendê-las; isso desencadeia uma reação muito forte contra o meu pioneirismo.” Num passe de mágica, a autocrítica se transforma em auto-elogio.

Em nossos tempos de desconfiança, esses lances de prestidigitação tendem a surtir cada vez menos efeito. E, mesmo quando ainda conseguem iludir alguns incautos, eles trazem para os mistificadores talentosos vantagens precárias, pelas quais o mágico, afinal, acaba pagando, humanamente, um preço mais elevado do que supõe. Querendo ou não, cada um de nós caminha inexoravelmente para a morte (e o prestidigitador não escapa a esse destino). Reconhecendo francamente nossos fracassos, elaborando nosso curriculum mortis, assumindo autocriticamente os momentos “noturnos” em que vamos morrendo aos poucos, aumentamos as nossas possibilidades de nos conhecermos e de nos aperfeiçoarmos espiritualmente; e, de certo modo, esse talvez seja o único caminho possível de preparação para o fim pessoal inevitável. Quem insiste em se iludir, na realidade, está optando por enfrentar despreparado todas as dores que lhe vão desabar em cima, na hora da desilusão. Os indivíduos que conseguem se elevar a um ângulo mais universal e conseguem discernir com clareza as limitações do ser particular deles, em princípio, devem estar em condições menos ruins para se defrontar com a morte (já que são capazes de reconhecer algo – a humanidade, Deus – acima de suas individualidades; e esse algo não morre).

A abordagem do tema da morte, aqui, pode parecer surpreendente; os marxistas não costumam escrever a respeito desse assunto (e há quem alegue, com alguma ligeireza, que a omissão se deve ao fato de eles se ocuparem preferencialmente dos problemas da vida). Na verdade, a compreensão de alguns dos problemas da vida só pode se aprofundar se nos dispusermos a refleti também sobre a morte, E há um precedente da maior importância na reflexão dialética sobre a morte; ele se encontra na Fenomenologia do Espírito, de Hegel.

Nesse livro, Hegel estuda – num nível notoriamente muito abstrato – o movimento da consciência, que parte da percepção sensível, imediata, e caminha para o que ele chama de saber absoluto. Em sua trajetória, a consciência assume diferentes figuras, A quarta figura desse itinerário é a autoconsciência e a quinta é a razão. Pois bem: para passar da autoconsciência à razão, é preciso pensar a fundo a questão da morte.

Para Hegel, a autoconsciência é uma figura na qual a consciência analisa as coisas, vai completando seu campo de entendimento, mas tende inevitavelmente a se encerrar em si mesma, a excluir o novo, a deixar de fora o negativo; ela tende então a se encastelar numa positividade enrijecida. Na medida em que sente necessidade de avançar, a consciência precisa, por conseguinte, superar essa figura; precisa se desembaraçar da sua segurança artificial, vencer seu medo, encarar o negativo. E a forma universal do negativo é, precisamente, a morte.

A conquista da razão, portanto, depende – segundo Hegel – da capacidade que a consciência venha a adquirir de olhar a morte de frente, aproximar-se dela, permanecer junto dela, conviver com sua presença assustadora (em vez de contorná-la e fingir que ela não existe). Só assim a consciência consegue se enriquecer, assumindo seriamente seus limites, incorporando – dolorosamente – a dimensão do negativo à sua compreensão do mundo e de si mesma. “O Espírito” – lê-se na Fenomenologia do Espírito – “só conquista a sua verdade quando é capaz de se encontrar a si mesmo na mais absoluta dilaceração.”

Essa indicação preciosa se perdeu, na história das lutas travadas pelos herdeiros da dialética hegeliana. A consciência dos marxistas, com o tempo, começou a apresentar sintomas daquela positividade enrijecida a que se referia o autor da Fenomenologia do Espírito. Difundiu-se uma concepção simplificadora, maniqueísta, da revolução: em rígida contraposição à “corrupção” burguesa, as organizações revolucionárias eram levadas forçosamente a exagerar sua “autenticidade nuclear”, sua “justeza fundamental” (minimizando conseqüentemente todas as deformações internas, todas as graves anomalias que se verificavam em seu interior). A genuína autocrítica definhou, o “triunfalismo” se impôs. Os revolucionários foram envolvidos por uma ideologia que não lhes cobrava maior empenho em crescerem porque os convencia de que já eram bastante grandes; uma ideologia que não os pressionava no sentido de indagarem mais a respeito das coisas e deles mesmos, porque lhes sugeria que eles já tinham as respostas essenciais.

Mas a história se rebelou contra os que proclamavam seus direitos sobre ela. A prática desmoralizou a teoria que se considerava sua carcereira e fugiu por todas as janelas. E o revolucionário foi obrigado a constatar, como qualquer homem comum, que a morte o está devorando a cada momento. Volta a se colocar, então, em nome da vida, a necessidade de incorporar o negativo à consciência. Através da autocrítica. Ou – se a expressão em latim não lhes parecer muito rebarbativa – através do curriculum mortis.

* Leandro Konder é filósofo e professor.

Publicado originalmente na Revista Presença, no 1, Novembro de 1983 (p. 125-130).

8 de junho de 2009

O VOO 447 NOSSO DE CADA DIA

Acredito sinceramente que todos os dias escapamos de uma tragédia. Não! Não quero com isso tentar me mostrar fatalista ou dar uma idéia de derrotismo, daquelas que falam que viver não vale a pena, pois é exatamente o contrário que pretendo comentar e tentar me convencer. Ora, se saímos à rua, certamente sabemos dos riscos que corremos: um desvairado ao volante, drogado, embriagado ou simplesmente envenenado pela ignorância; um raio, dizem, não cai duas vezes no mesmo lugar. Portanto, se nunca caiu nenhum sobre sua cabeça, fique ciente que este dia ainda pode chegar; um adolescente de 16 ou 17 anos, numa 'fissura' de se acabar pela falta de uma pedrinha de crack, pela falta de 5 ou 10 reais, pode se aproximar e, a depender de sua reação, ele pode disparar nervoso sua pistola e a bala, aquela única, encontrar o endereço certo, aliás, errado e se alojar extamente num órgão vital; e o que dizer de uma marquise que ameaça cair há meses, achar de desabar extamente naquele segundo em que você passa por debaixo dela; ou então, tomadas todas as precauções, você simplesmente caminhava em direção ao trabalho e 'pimba'!, caiu feito um saco vazio e, levado pelo SAMU, que chegou poucos minutos depois, chamado por transeuntes desconhecidos, chega ao hospital já pronto pra ser 'envelopado' e ir pra 'cidade-de-pés-juntos'. Não se assombre com todas essas conjecturas acerca das possibilidades de passar 'dessa pra pior' assim de repente, de um segundo pra outro. Sem assombro, mas precisamos nos conscientizar que é certo que isto pode acontecer com qualquer um de nós. Entretanto, se pensarmos que um avião, que é feito pra voar firme, um troço pesado daqueles, que reúne o que existe de mais avançado em termos de tecnologia, que é feito para não falhar, repentinamente desliga no ar e cai como um passarinho acertado por uma pedrada certeira da balinheira de um menino caçador, como é possível confiar em que o próximo não cairá? Dizem que, nessas horas, o melhor é confiar nas estatísticas. Ou seja, caem menos aviões do que a gente pensa se utilizarmos de uma escala, se fizermos um cálculo de probabilidades e proporcionalidade entre o número de aviões que decolam e aterrissam no mundo a cada segundo e apenas um cai assim, uma vezinha perdida, isso seria uma besteira. Dito de outro modo, é mais ou menos o seguinte: esse avião que caiu não foi o primeiro nem será o último. Agora vem a pergunta: por que a gente continua voando neles sabendo que eles podem cair? Arrisco uma resposta: pelos mesmos motivos que saímos de casa todos os dias pra fazer alguma coisa. Pelas mesmas razões que viajamos de ônibus, em nossos carros, muitas vezes em estradas esburacadas, pistas molhadas, cheias de curvas sinuosas e, por que não dizer, muitas vezes também acima da velocidade permitida ou recomendada pela temperança e o bom senso. Não tenho explicações para a queda do avião da Air France que fazia o agora famoso voo 447. Quem as tem? Duvi-de-o-dó que daqui a alguns meses os técnicos da empresa aérea, os peritos, os experts em avião tenham alguma resposta convincente para os familiares dos 228 sujeitos que estavam no interior daquele avião na fatídica noite de domingo pra segunda-feira, passagem de maio pra junho. Um detalhe: no site brasileiro da empresa consta apenas uma faixa com referência ao voo 447, com um link que remete o usuário a uma nota oficial onde a empresa se defende em relação à acusação de possível responsabilidade por não haver trocado a tal "sonda Pitot", recomendada pelo fabricante da aeronave. Certo mesmo é que esta mais nova tragédia da aviação nos deixa com uma pulga gigante atrás da orelha e aquela sensação esquisita ao entrar num avião, como um jogador de futebol, que se benze ao entrar em campo, que o faz pra pedir inspiração pra fazer um gol ou proteção ra não quebrar uma perna e assim por diante. Não vou desistir de viajar de avião (mesmo com a friezinha na barriga na hora da aterrissagem ou em alguma turbulência mais forte); não vou parar de viajar de carro; não vou deixar de sair à rua todos os dias; não vou ficar com medo de morrer por uma bala perdida (ou achada!); não vou me trancar em casa com medo de assaltos; não vou deixar de tomar uma dose de cachaça com medo de cirrose ou porque ela poderia conter metanol... (só tomo de boa procedência!); não vou deixar de dar minhas boas gargalhadas por medo de morrer a qualquer momento de uma emoção mais forte, uma 'turica', uma síncope, um passamento, um chilique ou um faniquito qualquer que me ameace de passar dessa pra pior. Se podemos morrer mesmo a qualquer hora, até no segundo após o término deste post. Se eu postar é porque não aconteceu... (hehehehe!), se tudo pode acontecer, então por que não viver em plenitude cada segundo que pode nos restar e que pode ser tanto uma sucessão de milhões, bilhões de segundos ou apenas um, umzinho... (?) Sei não, viu, mas viver ainda é o mais gostoso de toda essa história. Se a vida não é exatamente como a gente sonhou, ah!, palmas pra vida, porque seria uma chatice se tudo que a gente sonhasse estivesse ao alcance da mão. Deixa como está e vamos ver como fica! (P.S. Vai publicado sem revisão, pelo adiantado da hora. Vinícius não dormiu ainda - já passa da meia noite - e amanhã cedo preciso estar esperto pra enfrentar o metrô e a rampa da UERJ... para um dia inteirinho de aulas).