11 de agosto de 2011

SER PAI

Descobri que só se compreende, à exatidão, a dimensão do que é ser filho quando se é pai (ou mãe?).

Perdi meu pai quando tinha 14 anos e o mundo foi muito pior sem ele. Hoje, às portas de completar meio século  (em 2012), sinto falta do meu pai em situações e circunstâncias completamente inusitadas. Quando estou diante de um grande problema, quando comemoro uma importante conquista...vez por outra penso, assim com meus botões miúdos, ah, se meu pai estivesse aqui agora!

E lá se vão 34 anos de sua partida.

Vez por outra sinto o cheiro do meu pai chegando de uma pescaria, de uma caçada e, cansado, sentando-se ao tamborete para espremermos espinhas em suas costas suadas...o cheiro da cartucheira, da perneira de couro, do suor do chapéu...

Ouço a voz do meu pai, vejo-o assobiando e nos ensinando a afinação de uma canção qualquer. Vejo-o resmungando contra a proliferação de músicas "sem valor" e vibrando com certas canções (modernas à época) de Ronnie Von, Hermes Aquino e Antonio Marcos. Banda da Ilusão, Nuvem Passageira, Como Dois e Dois...

O velho Tonito Guedes era velho pra mim com seus 50 anos, quando partiu definitivamente. Ainda escuto a sua voz sussurrando ao meu ouvido, ao pé da rede, às 3h da madrugada, a dizer: Tõe Guede, óia a caça! Aquilo não morrerá jamais em mim, em minha memória auditiva, em todos os meus sentidos.

Hoje, sendo pai pela terceira vez, experimento novamente a sensação dolorida, saudosa e maravilhosamente bela de ter tido uma figura tão imponente, importante, fantasticamente marcante em minha vida: MEU PAI!

Repousa sossegado, agora ao lado de Dona Neide, à sombra da Ingazeira que enfeita a entrada do cemitério de Juazeirinho.

Na prática ele está lá, mas, pra ser sincero, de verdade... ele está é aqui dentro. Vivo! Vivo como sempre esteve!

Assim como tenho tentado todos os dias, domingo que vem (simbolicamente, pelo menos) eu serei mais uma vez a continuação dessa história. Um sujeito tentando ser moderno sem perder os bons e fundamentais valores que aprendi com você. Aliás, com o Senhor, como era necessário chamar naqueles tempos.

Valeu, meu velho! 

7 QUERO COMENTAR:

Bruna Nunes disse...

eu, sinceramente, nunca tinha sentido nem entendido a importância de um pai até ler esse texto e suas "twittadas" durante essa experiência, que parece se renovar. boa sorte, mais uma vez.

Aninha Santos disse...

E a tua saudade vira a minha saudade, aí eu choro e penso que é preciso seguir em frente, sem perder os valores que aprendemos. Gosto de vir a esse blog. Feliz dia dos pais pra tu que é um amigo tão querido e precioso. Xêro.

Tiago disse...

Bonita homenagem, Rangel! Por aqui estou no segundo e já parei! Ser pai para duas pessoas já é muita responsabilidade!! E uma delícia!!
Abração,
Tiago

Ana Paula Porto disse...

Entre minhas lágrimas cheias de saudade li seu texto com o respeito que tinha para com o meu pai e o compartilhamento de sentimentos, eu também perdi meu pai, recentemente, esse Dia dos Pais que se aproxima é o primeiro que não vou poder às 6:00 da manhã bater na porta do quarto dele, abraça-lo e declarar meu amor por ele, pena, mas agradeço a Deus por ter vivido ao lado dele meus 23 anos! Parabéns professor pelo texto, pelo mestre, meu pai e pelo filho que és. Abraço!

Raquel Macedo disse...

Impossível conter as lágrimas com o seu texto, a sua história. Passeei pela minha infância. Nossa, quanta saudade do meu pai... Desde aquele triste fim de semana que ele partiu ao paraíso, já se passaram 10 anos. Para sofre menos, aprendi a viver sem a presença física, e descobri que posso viver sim, com uma presença viva, no coração. E o que me dá força? Lembrar do que ele sempre dizia: "Estude, minha filha, estude. Vale a pena!"

Lindas palavras, Rangel. Parabéns!!

Débhora Melo disse...

Não existe para mim definição melhor do que suas próprias palavras.

Para o sujeito ser pai/Basta o gozo d'um segundo/Mas o lampejo de vida/Deste momento fecundo/Fica pro resto da vida/Na vida de todo mundo.

Parabéns pelo emotivo e saudoso 'desabafo'.

Abraços,

Débhora Melo.

Malu disse...

Que declaração mais sensivel e profunda.
Adorável, mesmo!! Abraços